29 março, 2013

O FUTURO DE UMA ESTUPIDEZ

       Fotografia das mãos de Ezra Pound pegando num livro aberto com mesa ao fundo

Continuo na viagem de comboio do post anterior.
O optimismo pluralista do final está longe de anular a minha maior empatia pelo tipo que lê A Morte de Virgílio. Nem anula o meu nervoso miudinho ao ver um adulto certamente com formação universitária que escolhe um jogo para criancinhas do estádio pré-operatório em vez de um jornal, revista ou livro, ainda que o jornal fosse desportivo e o livro fosse uma daquelas tretas mal amanhadas que hoje se publicam dia sim, dia não. Reitero também a ideia de que um homem que lê A Morte de Virgílio não se reduz a um homem que lê A Morte de Virgílio e de que um homem que joga um jogo não se reduz a um homem que joga um jogo. E que o campo intersectivo de ambos pode, felizmente, existir.
Não nego, todavia, que a minha empatia continua a ir na direcção do tipo que lê, sendo ele quem eu escolheria para fazer a viagem de automóvel. Ora, é precisamente esta obsessão valorativa no tipo que lê em detrimento do tipo que joga, que pretendo obsessivamente questionar.
Essa valorização é uma consequência natural do facto de, em abstracto, eleger como critério de preferência pessoal a dimensão intelectual e cultural de um indivíduo. Ou seja, em abstracto, embora sabendo que um homem que lê A Morte de Virgílio não se reduz a um homem que lê A Morte de Virgílio e que um homem que joga um jogo não se reduz a um homem que joga um jogo, serão esses elementos dicotómicos que irão prevalecer. Mas será que devem mesmo prevalecer?
Quem me diz a mim que o tipo que lê A Morte de Virgílio não é um sacana da pior espécie? Ou um tipo insuportavelmente arrogante, egoísta, narcicista, vaidoso e padecendo de autolatria? Será que faz sentido elegê-lo como companheiro de viagem só porque pode abrir a boca para falar de livros e dizer coisas culturalmente interessantes? E quem me diz a mim que o tipo que joga não é um gajo porreiro? Um tipo que, apesar de não fazer ideia de quem foi Virgílio e de confundir Broch com broche, é simpático, boa pessoa, amigo do seu amigo, bem disposto e com quem se pode amenamente cavaquear sobre coisas simples como um Benfica-Liverpool de há 20 anos, as grandes defesas do Damas e do Bento, sobre boa comida ou dizer mal dos políticos como se fôssemos dois taxistas rabugentos?
Mesmo assim, em abstracto, se tivesse que decidir rapidamente, escolheria o primeiro. Não só porque estou formatado para que na minha preferência prevaleça a parte intelectual e cultural, mas também porque, sem darmos por isso, fazemos depender a parte moral da parte intelectual. Não é por acaso que é mais  perturbador saber pelo Correio da Manhã que um médico matou a mulher do que se for um trolha. É mais perturbador saber que um engenheiro de Braga anda a violar raparigas do que um serralheiro mecânico de uma aldeia minhota. E um juiz, deputado ou professor universitário pedófilo é mais perturbador do que um desempregado pedófilo. Porquê? Por preconceitos aristocráticos que a própria burguesia astutamente se encarregou de herdar, pondo-os ao seu serviço. Não resistimos a fazer depender causalmente um conjunto de características pessoais e morais de um centro de gravidade intelectual, cultural e social. É ilusório e estúpido mas ilusão e estupidez às quais dificilmente escapamos.
Eu estava a falar a sério quando disse que pretendia obsessivamente questionar a minha obsessão valorativa no tipo que lê em detrimento do tipo que joga. Ilusões, haverá sempre umas melhores do que outras. Já a estupidez é sempre má e devemos fugir dela como o diabo da cruz.