26 março, 2013

MOSQUETEIROS


Já vimos que nenhum objecto é em si mesmo desejável ou detestável, valioso ou desprezível, e que os objectos recebem essas qualidades da constituição e do carácter peculiar do espírito que os contempla. Consequentemente, para diminuir ou aumentar o valor que uma pessoa atribui a um objecto, para excitar ou moderar as suas paixões, não existem argumentos ou razões directas que possam ser usados com alguma força ou influência. Apanhar moscas, como Domiciano, se provocar mais prazer, é preferível à caça de animais selvagens, como William Rufus, ou à conquista de reinos, como Alexandre. David Hume, Ensaios Morais, Políticos e Literários

Gosto de políticos cuja grande missão não é muito mais do que se entreterem a apanhar moscas. E quanto mais moscas apanharem melhor será o ambiente dos governados. Pode não ser um objectivo épico e grandioso que faça um político ficar na história. Mas vale o que vale e já nos podemos dar por satisfeitos por não termos moscas a incomodar-nos e a sujar o ambiente. Quando, pelo contrário, alguns políticos se metem a inventar e a mudar radicalmente as suas sociedades, nunca podemos prever as consequências que daí resultarão. Mais vale uma mosca morta na mão de um político pouco ambicioso do que abutres famintos e nervosos a voar sobre as nossas cabeças. Políticos como Hitler não haverá, felizmente, muitos. Mas andam por aí muitos políticos que, não sendo abutres nazis, revelam uma imaginação ilimitada para dar cabo das vidas das pessoas sem que isso lhes tire o sono. Prefiro, de longe, os meus mosqueteiros.