03 março, 2013

MINIMALISMO EDÉNICO

Arthur Leipzig | Subway Lovers

No filme Passagem para a Índia (David Lean no seu melhor) há uma cena em que a jovem inglesa pergunta ao seu amigo indiano se amava a mulher com quem casou. Este responde que nunca se tinham visto antes do dia do casamento. Ela, surpreendida, insiste: "Então, e o amor?", respondendo ele, muito naturalmente, "Éramos um homem e uma mulher e éramos jovens". E pronto, fica-se por aqui, com aquele ar de que não precisa de dizer mais nada pois nada há para dizer sobre o que é óbvio. 
Para os interessados, basta colocar o filme nos 14' e 20´´ e vai-se ter directamente ao diálogo em questão:


A resposta do jovem advogado indiano é absolutamente lapidar. O que nela pode chocar um ocidental é o seu  radical minimalismo edénico. Minimalismo edénico? Passo a explicar. Tenho a minha Bíblia à frente dos olhos e leio o seguinte: 

O Senhor Deus disse: «Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele». [...] Então, o Senhor Deus adormeceu profundamente o homem; e enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das suas costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem.
Ao vê-la, o homem exclamou: «Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem». Por este motivo, o homem deixará deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne.

Eis o minimalismo edénico.  Adão e Eva não se apaixonaram, não se conheciam, não se estudaram previamente para avaliar se teriam personalidades, feitios, temperamentos, interesses, motivações, objectivos compatíveis. Tal como os jovens indianos, Adão era um homem e Eva uma mulher e eram jovens. Aliás, Adão (adamah) em hebraico significa terra cultivável, depois de ter sido feito do pó da terra, sendo Eva um prolongamento da sua própria natureza.
Somos já crescidinhos para não termos que embarcar naquelas parvoíces feministas a respeito da costela de Adão. O que importa aqui é a ideia de que existe uma comunhão entre um homem e uma mulher, e uma comunhão anterior a qualquer disposição psicológica, social ou estética. Claro que de acordo com uma mentalidade hebraica, será a mulher a ser tirada do homem. Porém, se pensarmos apenas no essencial,  o alcance simbólico da união, a costela não passa de um mero pormenor histórico-cultural. Simbolicamente, Adão e Eva são feitos um do outro, feitos dos mesmos ossos e da mesma carne. Basta isso, o mesmo que também bastava aos jovens indianos.
Ao contrário do mito adâmico, mas também do mito platónico explorado no Banquete, nos quais homem e mulher não se apresentam como duas individualidades carregadas de subjectividade e densidade psicológica mas apenas como dois opostos que se procuram e completam numa unidade primordial, o casamento moderno, ocidental, está centrado numa afirmação do indivíduo que deseja viver o amor em função dos seus interesses e motivações pessoais. O que era natural e espontâneo passa pois a ser resultado de um esforço, de um exercício marcado por objectivos, exigências e reivindicações.
Daí eu não saber bem como interpretar uma notícia como esta. Será ou não bom para estes jovens indianos perseguirem objectivos individuais em vez de estarem submetidos a uma estrutura (meu deus, estrutura, estruturalismo, há quanto tempo não ouço falar de estruturalismo) na qual se diluem enquanto indivíduos? Claro que para nós, ocidentais, choca pensar no casamento submetido a uma lógica de castas ou de qualquer outra estrutura social que transcende a subjectividade psicológica de cada indivíduo. Porém, podemos questionar até que ponto essa queda na individualidade, a qual transforma a espontaneidade edénica no esforço do amor para servir objectivos individuais, valerá mesmo a pena.
Deve ser bom ser apenas homem e mulher.