20 março, 2013

MÃOS

Germaine Krull | Estudo de Mãos

Ontem, telefonou-me a minha filha a perguntar se eu já tido à caixa do correio. Eu disse que sim.  
"E então?"
"E então o quê?" 
"Não viste o que eu te mandei?"
"Mas não me mandaste nada."
"Mandei, mandei!"
"Mas estou neste momento a olhar para a caixa do correio e não tenho cá nada."
"Não é essa, é  mesmo a caixa do correio, vai lá abaixo ver".

A minha filha tem 20 anos e farta-se de saber coisas de computadores, nos quais começou a mexer ainda mal sabia falar. Eu, de computadores pouco sei e já tinha feito 30 anos quando mexi num pela primeira vez. Porém, nos espontâneos e improvisados mecanismos da minha consciência, "caixa do correio" passou já a equivaler a "e-mail". Não deixa de ser engraçada esta minha tão moderna e tecnológica associação, quando passei parte da juventude a descer as escadas da minha velha casa para ver se tinha cartas na caixa do correio, cartas essas que ainda hoje guardo religiosamente. Por sua vez, na cabeça da minha filha, já formatada por gadgets, programas e funções informáticas, ainda existe um cantinho no qual ocorre a possibilidade de escrever um postal à moda antiga endereçado para uma caixa de correio à qual se chega, não através de uma password, mas com uma chave saída do bolso. 
Pela lógica devem ser os pais a ser um exemplo para os filhos. Neste caso, já completamente submerso numa comunicação virtual feita de tipos de letra e de tamanhos de letra que surgem frias e distantes num ecrã de vidro, fui salvo por um postal à moda antiga, com letras desenhadas à mão e enviado à mão. E que com uma mão eu agarrei.