28 março, 2013

INTERSECÇÕES

           Anónimo| Double Exposure Tintype of Three Young Women, c. 1875

Há cenários tão perfeitos que parecem feitos de propósito para fins literários. Não foi esse, porém, o caso que irei agora relatar.
Durante uma viagem de comboio vão dois tipos mais ou menos da mesma idade ao lado um do outro. Quando eu entro no comboio ainda só vinha um deles, encostado à janela a ler A Morte de Virgílio. Na estação seguinte, entra o outro e então aí, sim, passam a fazer a viagem como viajantes siameses. Mal se senta, puxa de um pequeno gadget cujo nome, em virtude da minha ridícula iliteracia electrónica, eu desconheço, e começa a jogar um daqueles jogos que fritam o hemisfério esquerdo do cérebro. Nos ouvidos trazia uns auscultadores que lhe faziam bater o pé com intensidade e de vez em quando parava o jogo para receber ou enviar sms num telemóvel pousado na prateleira. 
A partir daí lá iam eles absolutamente ensimesmados nos seus mundos. Discretamente, eu olhava para um e para outro e, perante cenário tão insólito, não fui capaz de continuar a ler o que tinha em mãos, dedicando-me apenas a cismar sobre o que observava. E como ainda estava longe do meu destino, tempo não faltou para várias ideias me passarem pela cabeça, umas mais óbvias, outras com um certo grau de sofisticação metafísica, salvo seja. Não irei expor nenhuma delas pois não o merecem. Mas gostaria de dizer qualquer coisa sobre duas experiências mentais, existenciais e até civilizacionais tão distintas.
Quando entrei no comboio e vejo alguém a ler A Morte de Virgílio, senti logo uma grande empatia. Eu vejo à minha volta pessoas a ler, mas A Morte de Virgílio não é um livro qualquer e um tipo que não lê um livro qualquer não pode ser um tipo qualquer. Empatia que aumentou ainda resultante de um contraste maniqueísta pela presença do outro. E quanto mais admirava o primeiro mais embirrava com o segundo. Acredito que o que me passou pela cabeça ao olhar para aquelas duas pessoas não deve ter andado longe do que passou pela do vate de Stratford quando criou Próspero e Caliban.
Mas, logo de seguida, pensei no que aconteceria se, por qualquer motivo, aqueles dois tipos fossem obrigados a fazer juntos uma viagem de automóvel. Se em vez de irem separados por uma fronteira intransponível como acontecia naquele comboio, fossem obrigados a conversar dentro de um automóvel. No que conversariam? O que teria cada um deles de interessante para dar ao outro? Seria a comunicação e a simpatia possíveis entre eles?
A partir deste momento, desviei-me da abstracção de um olhar que reduz aqueles dois tipos a dois arquétipos para infiltrar o meu pensamento numa possível experiência concretas entre dois sujeitos. Na teoria dos conjuntos temos uma intersecção quando dois conjuntos diferentes, A e B, apresentam vários elementos em comum. Há partes do conjunto A que excluem todo o conjunto B, como há partes do conjunto B que excluem todo o conjunto A. Porém, ambos têm uma parte em comum.
Ora, o facto de aqueles dois indivíduos poderem ter experiências mentais e existenciais irredutíveis, não implica a existência de dois indivíduos impermeáveis à experiência um do outro. Um indivíduo que lê A Morte de Virgílio e um outro que joga num gadget como se tivesse 10 anos podem ter mil e uma coisas em comum, conviverem, serem amigos e passarem bons momentos juntos. Uma pessoa que lê A Morte de Virgílio está muito longe de ser alguém que lê A Morte de Virgílio, alguém que joga num gadget está muito longe de ser alguém que joga num gadget. Perceber isso e viver bem com isso é uma das experiências humanas mais importantes. Eu faria a minha viagem de automóvel com qualquer um dos dois e o prazer que teria em falar com um seria diferente do prazer que teria em falar com o outro.