19 março, 2013

CHOQUES ELÉCTRICOS

        Billy Wilder | Love in the Afternoon [fotograma]

Uma das coisas que aprecio nos românticos é o seu dom para vaguear entre o lado mais negro da vida e o sentido de humor. Por cá, temos o nosso Camilo, homem cujo desgraçado ocaso nunca lhe coarctou a capacidade de se rir do lado mais caricato da existência humana, a começar pela sua própria realidade doméstica.
Atravessando o Atlântico, Edgar Allan Poe é também um bom exemplo dessa criativa e só aparentemente bizarra associação entre o sinistro e o cómico. Um conto chamado Os Óculos, começa com a personagem principal a defender a ideia de que amor à primeira vista não é, como pensam alguns, uma ficção, um  mito, mas um estado mental que pode ser explicado cientificamente. Para ele, a ideia de simpatia eléctrica resultante de recentes descobertas científicas sobre magnetismo ético e estética magnética (Estamos no século XIX, Frankenstein, lembram-se?), é a base que permite explicar a forte atracção entre duas pessoas, nomeadamente o clássico amor à primeira vista. 
Quem é esta personagem? Trata-se de um jovem elegante, bonito, rico, vaidoso, que adora mulheres, e que reconhece em si apenas um defeito: ver muito mal. Mas recusando-se a usar óculos por considerar que nada desfigura tanto um rosto bonito, nomeadamente o dele, como um par de óculos.
Um dia, na ópera, apaixona-se perdidamente por uma mulher que se encontra num outro camarote.

   Vivesse eu mil anos e nunca poderia esquecer a emoção intensa com que a fitei [...] Fixei esta aparição real durante pelo menos meia  hora, como se tivesse sido, de súbito, transformado em pedra; e durante este tempo, sentia toda a força, toda a verdade do que dito ou cantado sobre o amor, sobre o «amor à primeira vista». Os meus sentimentos eram totalmente diferentes dos que até então sentira,  mesmo na presença dos exemplos mais célebres do encanto feminino.. Uma simpatia de alma para alma inexplicável e que sou obrigado a julgar magnética, parecia atrair não só o meu olhar,  mas toda a força do meu pensamento e dos meus sentimentos, sobre o objecto admirável que se me oferecia à vista. Via, sentia, sabia que estava profunda, louca e irrevogavelmente apaixonado.

Não quero alongar-me, por isso não vou entrar pormenores. Apenas referir que, em virtude de uma série de equívocos que não são agora para aqui chamados, foi-lhe dito que se tratava de uma jovem e lindísssima viúva chegada de Paris, que andava a provocar tempestades nos rios de testosterona dos nativos.
A mulher por quem ele se apaixonara não era, porém, a que lhe foi descrita, e que confirmaria a razão de ser do seu magnético e eléctrico amor à primeira vista. Essa era uma outra que acompanhava a mulher a "mulher da sua vida". E quando ele falava aos outros numa bela mulher, era nessa outra que os outros pensavam. A que ele elegera como "mulher da sua vida" era uma  mulher de 82 anos e cuja aparência física nada tinha de Ninon de Lenclos. 
Tudo isto aconteceu por falta de óculos. Toda a descarga magnética e eléctrica que arrebatou cabeça, coração e estômago deste jovem que acabou de se apaixonar pela última mulher por quem se deveria apaixonar, se deveu à falta de óculos. Toda a descarga eléctrica e magnética que tornou a sua alma cativa daquela mulher só foi possível devido à falta de óculos, os quais teriam evitado ser traído pela sua forte miopia.
Todos sabemos como acabou o dr Frankenstein. Neste conto, vimos também como o escritor americano responde  às mitologias científica do século XIX, o século do positivismo e da ascensão da Química e da Biologia.  Nunca deveríamos deixar de ouvir os românticos. A sua paixão pelo lúgubre e fantástico nunca lhes retirou lucidez.