11 março, 2013

ANIMAL FARM, SEMPRE!

Anja Miller

Quando oiço banqueiros ou gente das finanças como Fernando Ulrich ou António Borges, dizerem alegre e livremente as maiores alarvidades, lembro-me dos anos 70 em Portugal e de outras alarvidades como "Morte à burguesia!" ou "A cantiga é uma arma/contra a burguesia/tudo depende da bala/e da pontaria".
Hoje, tirando alguns trogloditas fanáticos que ainda acreditam nas virtudes da Albânia comunista como se tivessem vivido isolados desde então num subterrâneo, já ninguém exige a morte da burguesia. Como foi então possível, naquele tempo, dizerem-se tais coisas que hoje já ninguém consegue dizer? Foi possível porque era possível. Há coisas que se dizem porque o tempo em que se dizem deixa dizê-las, tal como há outras que não se dizem porque o tempo não deixa. Há um ar do tempo, um ar do tempo que por vezes quase obriga a dizer o que se diz, o mesmo que, noutras vezes, esse tempo impede de dizer, como se nunca tivessem sequer existido.
Ora, mais preocupante do que dois patetas sem vergonha na cara como Borges e Ulrich dizerem o que dizem, é o facto de ser possível dizerem-no. De o dizerem porque se sentem livres para o dizer, porque o ar do tempo os deixa dizer, sentindo-se legitimados para o dizer. Isso, sim, é preocupante. Porque uma coisa são dois, sete ou  vinte patetas, outra bem mais grave é o próprio tempo tornar-se estupidamente, vorazmente, assanhadamente pateta.
É hábito dizer que o nosso tempo carece de ideologia, havendo economia a mais e ideologia a menos. Não é verdade. Mais assumida ou mais sorrateira, a ideologia está sempre presente. A própria Economia é uma ciência social e humana que terá sempre por detrás pressupostos de natureza ideológica.
Do que o nosso tempo precisa, tal como o que já passou ou o que há-de vir, é de moral e de ética. O problema é uma Economia liberta de valores morais fundamentais e dispensando uma profunda reflexão ética a respeito do que deve ser uma sociedade justa e na qual o interesse da maioria não esteja subjugado ao interesse de alguns. E, consequentemente, do que deve ser considerado imoral a partir do momento em que contribui para impedir uma sociedade de alcançar os seus mais nobres objectivos.
Fernando Ulrich e António Borges podem ser parvos e ninguém tem nada que ver com isso. Têm todo o direito a sê-lo enquanto meros peões. Peões ricos mas peões. O que deve ser renovado é o ar fétido e saturado que respiramos por causa do estrume que eles apenas se limitam a espalhar quando abrem a boca.