30 março, 2013

A PÁSCOA


Alfredo Cunha

Apesar de ser um fanático pagão sempre gostei da Páscoa. E não é só por causa das amêndoas e dos ovos do chocolate, simbolizando a renovação de uma natureza hibernada. Páscoa é Primavera: o regresso do Sol, as libelinhas e as abelhas adejando as flores que nos inebriam com seus milenares aromas, as mulheres de novo com roupas mais generosas depois de meses alienadas com pesadas e escuras vestes ou a conta da electricidade mais  baixa.
A Páscoa concentra em três dias uma espécie de conflito civilizacional, o que é bastante estimulante de um ponto de vista antropológico. Na sexta-feira de Paixão as pessoas fazem jejum, ouvem música sacra e o cardeal patriarca na televisão, assistem a procissões sinistras e, com o ar de quem está a ouvir um pungente Stabat Mater, pensam angustiadamente sobre a fatalidade de ser o PS ou o PSD a ganharem de novo as eleições. Há países, como as Filipinas, onde não havendo um PS ou PSD para ganhar eleições, há quem arranje umas estratégias alternativas como espetar as mãos e os pés numa cruz. A dor é mais intensa mas depois passa, para além de ser bastante fotogénico e pitoresco para os turistas, enquanto uma legislatura em Portugal é um filme de terror que dura 4 anos.
Mas depois vem o domingo de Páscoa. As pessoas deixam de sofrer e fazer penitência para passarem a comer desalmadamente, a não quererem saber do Bach para nada e menos ainda do cardeal patriarca, e a beberem generosamente até para ajudar a esquecer a legislatura de 4 anos (nas Filipinas, embora também gostassem de beber e comer desalmadamente, têm mais dificuldade por causa da febre provocada pela crucificação da sexta-feira anterior, e do ardor nos olhos por causa dos flashes das máquinas fotográficas). Finalmente, e para concluírem o júbilo pela ressurreição do Senhor, a maior parte das pessoas vai passear para os centros comerciais ou para os supermercados em busca de produtos com 50% de desconto em cartão. Em suma, entre a sexta-feira e o domingo há uma espécie de transfiguração existencial dos cristãos. O que não deixa de fazer todo o sentido pois trata-se da eterna repetição do mythos tão bem explicada pelos estudiosos das religiões. Se lermos os teólogos, que são as pessoas que estudam e reflectem profunda e sagazmente sobre a transfiguração e a ressurreição, ficamos a saber que Cristo se transfigurou depois de passar, apesar de não ser filipino, a sexta-feira pregado numa cruz para depois ressuscitar.
Eu, sendo pagão, apreciando mais passar o domingo de Páscoa no meio das flores do campo, das árvores, das libelinhas e apanhando a luz do irmão Sol no rosto do que nos centros comerciais como os cristãos transfigurados pelo comida e bebida do almoço de Páscoa, fico contente por Jesus ter subido aos céus.
Se não tivesse subido aos céus, não teria havido cristianismo. Ora, é bem melhor para mim andar à vontade no meio do campo rodeado de abelhas e libelinhas, enquanto os cristãos se vão transfigurando nos centros comerciais manifestando o seu júbilo pela ressurreição de Cristo.