18 março, 2013

A CAIXA DE FÓSFOROS

André Kertész

Não se gosta de Truffaut por causa de Fahrenheit 451 mas de O Quarto Verde, de Jules et Jim, sei lá, As Duas Inglesas e o Continente, A Noiva Estava de Luto, O Último Metro ou a Mulher do Lado, entre outros. Cada um terá o seu Truffaut preferido mas desconfio que Fahrenheit 451 não será "o" Truffaut de muitos truffautianos.
Mesmo assim Fahrenheit 451 é um excelente filme, com um excelente argumento de Ray Bradbury: uma sociedade na qual os bombeiros, em vez de apagarem fogos, queimam livros. O filme não é interessante por causa daquela coisa muito socialmente empenhada de nos alertar para os perigos de uma sociedade na qual os livros venham a ser queimados por bombeiros. Não se prevê que os livros comecem a ser queimados, embora tal já tenha acontecido diversas vezes. Aliás, quando perguntaram ao Freud como reagia ao facto de queimarem os seus livros, respondeu que até nem era mau de todo se comparado com o tempo em que em vez dos livros queimavam as pessoas que escreviam os livros. 
O que o filme pode ter de interessante não é qualquer tipo de denúncia a respeito de um putativo futuro totalitário e essas coisas assim orwellianas mas, ainda que não seja essa a sua intenção, sugerir a ideia de uma sociedade na qual os livros seriam esquecidos e inutilizados. E se não vivemos numa sociedade onde os livros sejam queimados, vivemos numa sociedade onde os livros vão sendo simbolicamente queimados. Não por um poder político totalitário que impeça as pessoas de ler mas pelas próprias pessoas que se auto-impedem de ler. Claro que não me refiro ao lixo editorial que empesta actualmente as livrarias. Falo de boa literatura e boa literatura está longe de ser aquela coisa hermética que só alguns tipos especialmente inteligentes conseguem digerir.
Quem lê, hoje, Vergílio Ferreira ou Camilo? Ou Eça, para além dos efebos obrigados a lê-lo na escola? Quem lê, hoje, Montaigne, Balzac, Flaubert? Ou Nietzsche? Ou os russos? Ou o Orlando? Ou Jack London? Os livros existem, estão aí, podem-se comprar. Mas esquecê-los, ignorá-los, rejeitá-los é uma forma de os queimar. Pegar num livro e queimá-lo com um fósforo não é diferente, na substância, de o ignorar ostensivamente. O resultado é o mesmo: um livro que alienou a sua existência, um livro que não pode ser lido porque as pessoas, apesar de terem aprendido a ler e até terem cursos universitários, não estão feitas para o ler, não estão disponíveis para o ler, porque formatadas para não o poder ler. E um mundo onde quem pode ler livros está formatado para não os conseguir ler, é uma sociedade na qual as pessoas estão proibidas de ler. Eu não estou proibido de falar húngaro ou turco. Mas se daqui a 5 minutos eu quiser falar ou ler húngaro ou turco, não serei capaz uma vez que não fui preparado para isso. Ninguém me proíbe mas não deixo de estar proibido de o fazer. Não há, pois, uma conspiração, um diabólico poder oculto que prepare as pessoas para a ignorância e a iliteracia. Mas a tecnologia e o modo como as pessoas ocupam cada vez mais os seus momentos de lazer, impossibilita-as de ler. Como se andassem com uma caixa de fósforos na mão para queimar os livros que lhe apareçam à frente.