03 fevereiro, 2013

UMA PRECIOSA ILUSÃO



Sim, uma imagem pode valer mil palavras, todos sabemos. Mas pode uma imagem substituir mil palavras com um conteúdo moral ou político? Pode uma fotografia explicar melhor um dado moral ou político do que um texto bem pensado, um bom argumento, um exercício racional? Susan Sontag, nos Ensaios sobre Fotografia, defende que não. Que não, e que nada se pode compreender através de uma fotografia, que uma fotografia só por si não explica a realidade pois só o "narrativo nos pode permitir compreender". E acrescenta:

O limite do conhecimento fotográfico do mundo consiste em que, embora possa despertar consciências, nunca pode ser um conhecimento ético ou político. O conhecimento que as fotografias permitem adquirir é sempre uma espécie de sentimentalismo, cínico ou humanista. É um conhecimento de saldo: um simulacro de conhecimento, um simulacro de sabedoria.

Tem razão. A mesma razão que já tinha Platão: uma imagem não é conhecimento mas um  simulacro de conhecimento. Uma fotografia será sempre um pedaço solto retirado da realidade pendurado à frente dos nossos olhos, conquistando um significado fora do contexto que lhe dá sentido. É como vermos dezenas de vezes o caroço de uma maçã sem nunca nos terem explicado o que é. Mas habituamo-nos a vê-lo e senti-lo como algo de familiar, criando a ilusão de sabermos o que é só porque o vemos. E o esforço de ver é bem menor do que o esforço de explicar, pensar, analisar, argumentar. Basta abrir os olhos, espreitar e pronto, eis o mundo como imagem clara e distinta na palma dos olhos. Neste sentido, o "conhecimento" fotográfico não pode ser um conhecimento ético ou político. Não se faz, de todo, filosofia moral ou filosofia política com uma máquina fotográfica na mão.
Será isto dramático e humilhante para a fotografia? Uma desilusão? Não, se pensarmos que não podemos exigir à fotografia o que ela, por essência, não é. A fotografia dá a ver. Mas se ver não é conhecimento ético ou político, pode, no entanto, assumir-se como importante acção ética ou política.
Vejamos o caso desta fotografia de Lewis Hine. O que mostra? Uma criança triste no seu local de trabalho, não mais do que isso. E ver uma criança triste no local de trabalho não tem qualquer valor argumentativo numa posição moral face ao trabalho infantil. Podemos fotografar diariamente nas escolas portuguesas milhares de crianças e jovens com ar triste nas aulas de Matemática, Português ou Filosofia sem que isso signifique ser contra a escola. E uma criança não tem que estar sempre a rir. Esta garota de Hine pode estar adoentada, pode estar triste por um motivo que nada tenha que ver com trabalho, pode simplesmente ser uma garota tímida ou estar com vergonha perante a máquina de um homem que nunca vira. Até pode dar-se o caso de ser a primeira vez que lhe tiram uma fotografia, aparecendo assim com ar assustado no meio daqueles barulhentos teares mecânicos onde passa os seus dias, como apareceria se estivesse num jardim ou à porta de casa. Já agora, em quantas fotografias do século XIX ou no princípio do século XX, vemos pessoas a rir? Em suma, esta fotografia, em si, nada tem de moral, nada explica, nada argumenta, nada critica.
Mas, não o fazendo, obriga-nos a fazer esse exercício, ainda que retoricamente, artificialmente, ilusoriamente. E Hine sabe isso. Sabe que é preciso dar a ver, ainda que ver seja apenas ver. As cabeças das pessoas, depois, fazem o resto. Mas basta isso para que as suas fotografias sejam um acto de militância política e moral. Hine foi um grande humanista, considerado mesmo o primeiro fotógrafo social. Em 1908 decide dedicar-se à fotografia documental, oferecendo os seus serviços ao Comité Nacional de Trabalho Infantil. Em 1910 há cerca de dois milhões de crianças nos Estados Unidos que trabalham 10 horas por dia, seis dias da semana. Hine, com as suas fotografias, quis dar a mostrar aos americanos a realidade. Durante 10 anos percorreu cerca de 70000 km pelo país para fotografar estas crianças no local de trabalho, muitas vezes tendo que iludir a vigilância dos capatazes, fazendo-se passar por agente de seguros ou vendedor de Bíblias. Graças então às suas fotografias conseguiu comover a opinião pública, levou o governo a criar um departamento para comprovar a veracidade das imagens, dando origem, em 1918, a uma primeira lei que limita o trabalho infantil. Entretanto, o Tribunal Supremo, pressionado pelos empresários que temem elevados prejuízos, declara a lei anti-constitucional mas sem sucesso. 20 anos depois, Roosevelt proíbe definitivamente o trabalho infantil, estabelece um horário de 8 horas e um salário mínimo. [dados retirados de um texto de Marie-Monique Robin/Capa publicado no El País Semanal].
Fazer fotografia, repito, não é fazer Filosofia. Desde Platão que a imagem é simulacro e a Filosofia a negação racional desse simulacro. Mas se o simulacro estiver ao serviço de uma boa causa e o impacto sobre essa causa for superior ao da Filosofia, o que importa é o seu efeito. Espinosa é insuspeito face a qualquer tipo de valorização da superstição. Mas aceitava-a se essa fosse a via mais simples e directa para educar moralmente uma pessoa que não tivesse acesso a uma compreensão racional das ideias. Para despertar consciências qualquer despertador serve.