07 fevereiro, 2013

TO BE OR NOT TO BE

Lee Jeffries

Esta semana andou pela minha escola um grupo de professores dinamarqueses. Num dos dias, almoçava eu no bar e, enquanto os observava, ia pensando no que me separa deles. No facto de viverem num país com elevados níveis de desenvolvimento enquanto eu vivo num dos países mais pobres da Europa. Ou no quanto eles ganham ao fim do mês. Mas o que não me saía mesmo da cabeça era o facto daqueles professores viverem no país do mundo em primeiro lugar no ranking dos países onde as pessoas são mais felizes, à frente da Finlândia, Noruega, Suécia e Holanda.
O que significa viver no país mais feliz do mundo, viver no cume da felicidade? Ao pensar nisso decidi olhar para aqueles professores mas a partir de uma visão fenomenológica, de um puro olhar sobre eles, pondo entre parêntesis tudo o que de empírico sei a respeito deles. Passar a ver pessoas que se apresentam aos meus olhos apenas com um estado físico e psicológico: com dois braços e duas pernas, que se movimentam, falam, ora riem, ora estão sérios, comem, bocejam, observam, e não pessoas que vivem num país chamado Dinamarca, monárquico, protestante, rico, organizado, cuja capital é Copenhaga.
Enquanto entidades puras, deixei de ver diferenças entre aqueles professores dinamarqueses e os professores portugueses. Conversam como nós, riem como nós, comem como nós, estão sérios como nós. Se eu puser um daqueles professores ao lado de um professor português, não saberei qual deles será o mais feliz. Ok, poder-se-á dizer que estou a ser ingénuo pois estou a esquecer tudo o que na Dinamarca contribui para eles serem mais felizes e o que em Portugal para ser mais infeliz. Atenção, não estou a comparar um professor dinamarquês com um desempregado português. Estou a comparar dois professores. Muito bem, o professor dinamarquês ganha muito mais do que o português. Não deve, portanto, ter que fazer tantas contas como um de nós. E tem um melhor sistema de saúde, de ensino, essas coisas. Mas como é que isso se irá traduzir no dia a dia? Na rotina diária de um dinamarquês, onde se pode melhor descobrir a sua felicidade pelo facto de ganhar mais do que um português?
Há meia-dúzia de anos fui com a minha escola à Escócia, tendo ficado numa casa particular nos arredores de Edimburgo. Nessa casa vivia uma contabilista e o dono de um talho. O seu quotidiano consistia em sair de manhã cedo para trabalhar, trabalhar todo o dia, regressando ao fim da tarde para jantar e passar o serão a ver televisão. Eu via aquela contabilista e aquele comerciante a ver televisão e estava a ver uma qualquer família portuguesa, em Serpa, Oliveira do Bairro ou Montalegre a fazer exactamente a mesma coisa. A sua casa era vulgar, não tinham bens materiais significativos. Depois, em Londres, passei duas noites em casa de uma simpática professora reformada. Nessas noites que lá fiquei, o serão da senhora era passado em frente do televisor. Presumo que durante o dia andaria por ali, iria às compras, passeava o seu cão, cozinhava, essas coisas.
Será muito diferente o dia a dia de um professor dinamarquês? Como será a semana de um professor dinamarquês? E o mês? Ok, ganha mais. Mas o que faz ele com o que ganha mais? Come melhor do que nós? Veste-se melhor? Diverte-se mais? Passeia mais? Será que o dia a dia de uma pessoa mais feliz consiste numa vida alucinante durante a qual se gasta muito dinheiro e se passa o tempo a fazer coisas diferentes? Será tudo uma questão de quantidade?
Não, o problema da felicidade não é um problema quantitativo. Por essa ordem de ideias, uma pessoa que ganha 2000 euros é mais feliz do que uma pessoa que ganha 1500 e esta mais feliz do que uma outra que ganha 1000 euros. Também por esta ordem de ideias, o banqueiro Fernando Ulrich será um dos homens mais felizes de Portugal, mas a mim o que me parece é que ele deve ser um homem profundamente infeliz.
Depois, os povos não são mais felizes ou infelizes. Há é pessoas mais felizes e pessoas mais infelizes em qualquer povo. Claro que um nórdico parecerá mais feliz porque olha para a sua vida e sente mais segurança, estabilidade, organização, previsibilidade. Mas, no dia a dia, minuto a minuto, hora a hora, isso pouco conta. Há outros factores, mais psicológicos e subjectivos, que, esses sim, irão determinar quem é mais feliz. É por isso que podemos encontrar muitos portugueses, gregos, brasileiros ou cubanos, muito menos ricos mas mais felizes do que muitos suecos ou dinamarqueses ricos. A felicidade, de político e de económico tem muito pouco. Será mais um mito, apenas mais uma estúpida conceptualização sociológica. Precisamos de mais fenomenologia e de menos estatística para perceber a realidade.