17 fevereiro, 2013

O ÚLTIMO DIA

Cornell Capa

Acontece todos os anos. Alunos brilhantes, inteligentíssimos, que sabem pensar, discutem, argumentam, alguns deles com uma cultura geral impressionante, que nos testes dizem tudo o que há para dizer e de um modo perfeito. Falham, porém, em questões de escolha múltipla, onde tantas vezes acertam aqueles que mais gaguejam nas questões cujas respostas são mais complexas.
O que é exasperante não é o facto de estes alunos terem 19 quando mereciam ter 20, mas legitimarem racionalmente os seus disparates através de argumentos que fazem sentido e de conclusões verosímeis. O que falha, afinal? Pensam tanto, tanto, tanto, que acabam por preferir o caminho mais complicado, sendo assim traídos pela capacidade de abusarem da sua inteligência e ficando impedidos de verem o óbvio chapado mesmo à frente dos seus olhos. Um argumento com sentido não é necessariamente verdadeiro, uma conclusão verosímil não é necessariamente verdadeira.
Isto leva-me a pensar no anti-intelectualismo de muitos medievais, que pretendiam sobrepor a humildade e simplicidade da fé aos tortuosos exercícios de uma razão que fatiga a alma sem que nada de importante daí advenha. Diz-se, por exemplo, na Imitação de Cristo:

Alguns fatigam-se e atormentam-se para adquirirem a ciência e vi já, diz o Sábio, que isso é também vaidade, trabalho e aflição de espírito. Para que vos servirá conhecer as coisas deste mundo quando este mesmo mundo tiver passado? No último dia não vos será perguntado o que haveis sabido, mas o que haveis feito e não haverá mais ciência nos infernos, em direcção aos quais vos apressais. Cessai esse vão labor.

Para que serve uma profunda especulação filosófica, teorias arquitectonicamente complexas e elaborados conceitos gregos, quando basta à alma virar-se para a simplicidade das coisas óbvias, para a suprema clarividência do evangelho para cuja compreensão basta a fé, sendo a razão um empecilho?
Muito antes da Imitatio, já Santo Agostinho, invocando a sua juvenil vaidade e arrogância intelectual, se rebelava contra os artifícios da retórica que tanto o seduzira, contra a vacuidade de doutrinas que nascem, vivem e morrem sem nunca terem chegado ao núcleo do que é importante e verdadeiro. Quando? Claro,  no ocaso da sua existência, ao escrever as suas Confissões. A velhice é uma grande escola, sendo o poder dos olhos da alma inversamente proporcional ao poder dos olhos da cara. Pena já ser demasiado tarde.