04 fevereiro, 2013

O FUTURO DE UMA ILUSÃO

   Donata Wenders

A seguinte história é contada por Kwame Anthony Appiah, professor de Filosofia, criado no Gana e educado em Cambridge, no seu livro Cosmopolitismo-Ética num Mundo de Estranhos [tradução deplorável, de ficar com os cabelos em pé.]
Um médico missionário numa remota aldeia africana vê, horrorizado, dar água não tratada de um poço às crianças. Muitas ficam com diarreia, vindo depois a morrer. Explica então às mães que, apesar de a água parecer limpa e ser inodora, contém invisíveis criaturas que provocam as doenças. Mas que se a água for fervida as tais criaturazinhas serão mortas e a água já poderá ser bebida. Um mês depois, está de volta à aldeia, vendo, desanimado, que os bebés continuam a beber a mesma água sem ser fervida. Volta a falar com as mães mas desta vez para fazer o seguinte. Ferve a água e diz: "Vejam, há espíritos na água e, quando a pomos ao lume, eles fogem: estas bolhas que vêem são os espíritos a fugir, os espíritos que fazem com que as vossas crianças adoeçam". E assim convenceu as pessoas a ferver a água, salvando as crianças de mortais diarreias.
Eis uma bela história para contrariar a ideia iluminista de que se deve combater a ignorância com a luz da razão e da verdade, mostrando que a ignorância se pode combater com ignorância e que uma boa mentira pode ser moralmente mais eficaz do que a verdade. A verdade, neste caso, não salvou ninguém. Uma  engenhosa mentira, pelo contrário, foi decisiva para aquelas crianças.
Isto não tem, portanto, qualquer ligação com a ideia, associada à propaganda, de que uma mentira repetida se transforma numa verdade. Claro que em ambas as situações se trata de manipulação mas são manipulações diferentes. No primeiro caso, enganam-se as pessoas para adquirir poder sobre elas, suspendem-se os seus normais mecanismos racionais para fazer passar uma mensagem que, com eles, não iriam aceitar. No segundo, trata-se de proteger e salvar pessoas que não dispõem de mecanismos racionais que lhes permitam compreender uma mensagem que com eles, iriam obviamente aceitar. Ambos são paternalistas, mas com lógicas diferentes. No primeiro, enganam-se as pessoas para as tornar incapazes de compreender a verdade. No segundo, enganam-se as pessoas porque são incapazes de compreender a verdade.
O exemplo é africano mas a aplicação é universal. Ainda hoje estamos marcados com a definição do homem como ser racional. Convencemo-nos disso e depois queremos acreditar que os mecanismos racionais e científicos devem incondicionalmente prevalecer sobre todos os outros. Não devem.