06 fevereiro, 2013

ESCOLIOSE

Alfredo Cunha

Entreguei, numa turma, testes miseráveis. Fazia eu o sermão do costume quando duas alunas começaram a queixar-se de o teste ter sido difícil. Por dentro, senti-me como se tivessem acabado de me dizer que Miguel Relvas e Ana Drago eram namorados. Por fora, controlei-me para não dar uma desesperada gargalhada e, com o ar mais sério e grave deste mundo, pedi para pegarem no enunciado e darem um exemplo do que consideravam ser uma pergunta difícil. Olharam para mim com o ar que teriam depois de 15 minutos a ler um texto de Derrida, e uma delas assumiu: sim, o teste era fácil. Mas fácil para quem tivesse estudado.  Se eu ainda for provido de entendimento, dom do qual, confesso, já usufruí mais, o que a aluna quer dizer é que os professores deveriam fazer os testes já a contar com o facto, tão natural como uma pedra no chão para a Física aristotélica, de os alunos não estudarem, podendo assim alcançar mais facilmente o sucesso
Eu costumo dizer que para compreender Portugal e respectivos problemas e idiossincrasias, não são necessárias grandes análises económicas, históricas, sociais ou antropológicas. Basta entrar numa sala de aula. Começa no modo como os alunos entram na sala, no tempo de que precisam para se acalmar e concentrar depois de sentados, isto, claro, se se chegarem a acalmar e a concentrar, no modo como se fala, no modo como se copia para obter uma nota que não se merece e passar à frente de quem é honesto e leva o estudo a sério, no modo como se desvalorizam competências e saberes essenciais para uma formação académica sólida e eficaz, no modo como os professores são pressionados para fingir que ensinam e fingir que os alunos aprendem o que eles fingem ensinar, enfim, na difícil relação com o esforço, o empenho, a paciência e, sobretudo, o brio. Uma das experiências mais desoladores da escola portuguesa é assistir à entrega de testes em turmas nas quais os alunos, em  clima de festa, parecem concorrer para ver quem consegue ter a nota mais baixa. Convém não esquecer que estou a falar de estudantes. Jovens nos quais o Estado, as famílias e os professores, investem dinheiro ou dedicação profissional para frequentar a escola. O futuro de Portugal passa também por eles.