10 fevereiro, 2013

DO MAL O MENOS

F. W. Murnau | Fausto [fotograma]

Há tempos, num colóquio realizado no País de Gales, o economista Richard Bronk, o cientista político Phillip Blond e o filósofo das religião Chris Hamilton, lançavam a ideia de estarmos a viver, como resultado da crise da religião, um tempo sem moral, passível de destruir a sociedade, propondo ainda uma reflexão sobre as possíveis soluções para o problema.
Eu, confesso, tenho alguma dificuldade em compreender o problema. É verdade que os seres humanos que viveram e vivem nos séculos XX e XXI, não são moralmente perfeitos. Não atingiram, nem atingirão, um estado de santidade (não no sentido religioso mas kantiano, enquanto estado de perfeição moral), e uma sociedade de pessoas moralmente imperfeitas jamais será uma sociedade moralmente perfeita.
Porém, há que ter alguma cautela no modo como tantas vezes idealizamos o passado ao mesmo tempo que menosprezamos o que temos. Claro que o Mal que mais sobressai é o Mal que temos à frente dos olhos. Quando pego em jornais e começo a ler notícias de crimes terríveis, suicídios, assaltos, famílias destruídas, atentados, guerras, corrupção política e económica, pobreza, desemprego, revoltas, manifestações e outros descontentamentos perante a ordem das coisas, a minha vontade não é invadir a Polónia mas tornar-me Testemunha de Jeová para andar a pregar porta a porta pela salvação das almas e a esperança num paraíso que há-de chegar um dia. Mas fará isso algum sentido?
Existe uma enorme tentação em olhar para o passado e imaginar sempre uma superioridade moral que já não existe. Mas será o nosso tempo assim tão desprovido de referências morais? Era a moral, há 100 anos, mais consistente do que hoje? Havia, há 100, 200, 500 anos, mais respeito pelo elemento humano? Era melhor, há 200 anos, quando Deus ainda estava vivo e as várias igrejas tinham um poder que hoje já não têm, ser trabalhador, ser mulher, ser criança, ser de uma classe mais desfavorecidas, ser doente, ser deficiente, ser preto, ser homossexual, viver de um modo diferente do vivido pela maior parte das pessoas? E era-se mais livre há 200 anos? Havia mais educação? Vivia-se melhor? Havia mais justiça? Os políticos respeitavam mais os povos que pastoreavam do que hoje? Havia mais controlo sobre o seu poder? E eram os povos mais informados, mais livres de se manifestar, sendo ainda mais fácil livrar-se dos políticos que rejeitam?
Ok, se crise religiosa equivale a crise moral, estamos conversados. Mas se é verdade que a religião se pode apresentar como modelo moral, isso está longe de significar que um modelo moral se esgote na religião. Hoje, não assistimos a uma crise de valores. O que hoje temos é uma pluralidade de valores. Não há um Bem Comum nem um Mal Comum. Há vários modelos de Bem e vários modelos de Mal. Significa isto que o Mal continua a existir. Mas entre os males do presente e os males do passado, venha o Diabo e escolha. Eu, que de santo não tenho nada, já escolhi.