19 fevereiro, 2013

COM UM BRILHOZINHO NA ALMA

 Herbert List | The Iron Veil

Dizia Kant que havia duas coisas que o enchiam de respeito e admiração: o céu estrelado acima dele e a lei moral dentro dele. O céu estrelado fazia-lhe sentir o peso da insignificância do ser humano perante a escura e esmagadora imensidão dos espaços cósmicos. O que somos nós no universo? Uma merda, uns vermes cósmicos que, se esmagados por um cometa, não provocam qualquer cócega na Via Láctea.
Mas, depois, olhando para dentro de nós, vamos encontrar a lei moral. Ah! A lei moral. As leis do universo transcendem-nos, não são nossas, não fomos nós que as fizemos. Limitamo-nos apenas a conhecê-las. Mas a lei moral, ah ah, essa pertence-nos, é nossa e ninguém nos tira. Em que parte do universo é que há lei moral? Tanto universo, tanta estrela, tanta galáxia, onde raio vamos encontrar uma lei moral? Em lado nenhum excepto dentro de nós, dentro destas merdas sem qualquer valor, estas insignificantes pulgas que passam despercebidas no dorso do universo. Esse universo esmaga-me mas a lei moral que só eu possuo e conheço permite-me vingar da sua estúpida e inútil imensidão, escarnecer de um universo sem consciência de si, encher-me de orgulho antropológico apesar de não sermos propriamente uns anjinhos com asinhas a dar a dar.
Lembrei-me disto por se comemorar hoje o 540º aniversário de Nicolau Copérnico. Saber isso obrigou-me mais uma vez a pensar que nunca me interessei por Astronomia, que olhar para o céu através de um telescópio entusiasma-me tanto como assistir num sábado à noite a um Paços de Ferreira-Rio Ave na televisão e que fico absolutamente indiferente a tudo o que se passa para lá da estratosfera desde que não se venha meter connosco. O macroscópico está, para mim, ao mesmo nível do microscópico, mas, neste último, ainda me posso  preocupar com as bactérias ou os vírus que me podem provocar febre e dores musculares.
Quero lá saber se é o Sol que gira em torno da Terra ou se é a Terra que gira em torno do Sol. É igual ao litro. Mas a lei moral, essa sim, continua a preocupar-me, essa sim, continuo a persegui-la. Posso morrer ignorante e estúpido a respeito da escura e tenebrosa imensidão do espaço cósmico. Quero lá saber, que se lixe o universo. Morrer sem a consciência tranquila, isso sim, é morrer na mais densa e tenebrosa escuridão no interior desse universo que pode ser insignificante, ridículo, irrisório, mas que é o meu. Se quando eu morrer pedir mais luz, não é a das estrelas que peço.