23 fevereiro, 2013

BZZZZZZZ

Julia Margaret Cameron

Há um momento de O Último Tango em Paris em que os dois protagonistas (Marlon Brando e Maria Schneider) comunicam através de uivos. Vi a primeira vez este filme no Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras de Lisboa, quando por lá andava a estudar Filosofia. Desde então que passei a ter aquele diálogo como modelo de uma comunicação perfeita fora de uma relação funcional.
Tantos anos depois, ler uma notícia como esta reforça cada vez mais essa minha ideia. Haverá comunicação mais perfeita do que a que encontramos na relação entre flores e abelhas? Uma comunicação com base numa linguagem não só feita de cores, padrões e cheiros, mas também de sinais eléctricos.
Na Lição, Barthes, recuperando a ideia de Jakobson de que um idioma se define menos por aquilo que permite dizer do que por aquilo que obriga a dizer, defende que falar não é comunicar mas subjugar. E que a língua é fascista, não por impedir de dizer mas por obrigar a dizer. Neste sentido, a língua entra ao serviço de um poder, sendo a comunicação uma relação de poder. Daí que, afirma, só no exterior da linguagem possa haver liberdade, como por exemplo, através da singularidade mística, como acontece no sacrifício de Abraão, um escândalo para a razão, irredutível a qualquer dimensão discursiva.
O que falta mais nesta comunicação entre flores e abelhas? Absolutamente nada. Tudo o mais seria ruído, tagarelice e dissuasão. Também nas relações mais perfeitas entre seres humanos, a comunicação mais perfeita estará sempre para além do discurso. Só que estamos de tal modo viciados no ruído que já não conseguimos viver fora dessa gaiola, não feita de metal mas de estruturas sintácticas e semânticas.