08 fevereiro, 2013

BEM ME QUER, MAL ME QUER

Diane Arbus

Dei comigo a pensar por que é que gostamos de algumas pessoas e não gostamos de outras. Se nós fôssemos inteligências puras a resposta seria fácil. Bastaria analisar racional e objectivamente as pessoas em função dos seus actos, da sua personalidade, das suas ideias. Mas nós não somos, felizmente, inteligências puras, não funcionando, portanto, tal abordagem racional.
Claro que um acto imoral ou traços de personalidade repulsivos pode levar-nos a não gostar de uma pessoa. Mas há pessoas que nunca fizeram mal a uma mosca, havendo, porém, qualquer coisa que nos pode levar a não gostar especialmente delas ou a serem-nos indiferentes. Mas também há pessoas com as quais nos identificamos em muitas coisas, com gostos e ideias iguais às nossas mas com as quais podemos solenemente embirrar. Em sentido contrário, há pessoas muito diferentes de nós em aspectos estruturantes como a personalidade, a ideologia ou uma certa filosofia de vida e das quais podemos gostar bastante.
Por exemplo, imaginemos que amanhã conheço um professor de Filosofia que tenha feito uma tese sobre Isaiah Berlin, que goste de cinema, pintura e fotografia, que goste de passear no campo, de gelado de nata com noz de macadâmia e de tomar duche com gel de banho de verbena e limão do Petit Marseillais e de jogar ping pong. Ora, eu sou professor de Filosofia, andei a escrever uma tese sobre Isaiah Berlin, gosto de cinema, pintura e fotografia, gosto de passear no campo, adoro gelado de nata com noz de macadâmia assim como o cheiro de verbena e limão e de jogar ping pong. 
Posso, todavia, não ir com a cara desse tipo tão igual a mim, embora, racionalmente, houvesse todas as condições para gostar e até de termos uma boa amizade. O que nos leva, então, a gostar de alguém quando existem motivos racionais para não gostar, ou a não gostar, havendo motivos racionais para gostar? 
Poderia estender-me mais e explicar onde quero chegar. Mas fico por aqui, solicitando apenas a audição destes dois pequenos vídeos. O compositor é o mesmo, a composição é a mesma. A pauta é a mesma, a escrita musical é a mesma. Se tivermos com esta pauta uma mera experiência mental, isto é, "ouvir" a música apenas através da leitura da pauta, não sentiremos qualquer diferença. O que muda, sim, é, por um lado, o instrumento, por outro, a interpretação. O suficiente, porém, para que uma mesma composição se transforme em duas composições. Uns gostarão mais da primeira versão, outros, da segunda. Gostar mais ou gostar menos de alguém, não anda muito longe disto.