18 fevereiro, 2013

AS APARÊNCIAS ILUDEM

     Kenneth Josephson

É bastante curioso o processo mental de um professor de Filosofia ao elaborar um exercício de escolha múltipla. Trata-se de um exercício mais complexo do que simplesmente apresentar três conteúdos falsos misturados com um verdadeiro, como perguntar qual a capital da Roménia, dando como alternativas, Budapeste, Craiova, Bucareste e Bratislava. Neste caso, ou se sabe ou não se sabe, e para quem não sabe nenhum nome surge como mais ou menos verosímil do que outro. Num teste de Filosofia, para obrigar o aluno a pensar, o professor tem que criativamente imaginar raciocínios falsos que pareçam verosímeis. Raciocínios que, no fundo, são disparatados mas parecem fazer sentido e surgem disfarçados de verdadeiros. Ou seja, enquanto a verdade não exige criatividade e imaginação, uma vez que as coisas são o que são, mentir, iludir, dissimular, exige esse tipo de processo a fim de que a mentira deixe de ser grosseira e óbvia para se tornar verosímil.
Depois, o que está na base do processo mental por parte de quem erra ou se ilude com uma falsidade, é  o mesmo de quem acredita numa coisa verdadeira: uma crença. E uma crença cuja verosimilhança é igual para as duas pessoas, independentemente de ser verdadeira ou falsa. Acreditamos, porque acreditamos que é verdadeiro mesmo que seja objectivamente falso. O que acontece numa cabeça que considera verdadeira uma frase falsa, depois de ter considerado falsa uma outra que é verdadeira é igual ao que acontece numa outra cabeça que escolheu a frase verdadeira depois de considerar as outras falsas. A objectividade de uma verdade ou falsidade é relegada para segundo plano, pois o que conta é o processo subjectivo que transforma uma frase objectivamente falsa numa frase verdadeira, uma frase objectivamente verdadeira numa frase falsa ou uma frase objectivamente verdadeira numa frase verdadeira.
Quando, nos anos 70, o jovem Durão Barroso acreditava na Ditadura do Proletariado, era tão argumentativo e veemente como hoje ao acreditar que é execrável acreditar na Ditadura do Proletariado. Mesmo em conteúdos mais simples, quem, por qualquer razão (suponhamos que consultou um site feito por um ignorante que se julga sábio em Geografia) acredita que a capital da Roménia é Budapeste, pode estar tão convicto como outro que acredita que é Bucareste porque viu numa enciclopédia. A verdade conta muito pouco quando a ela se sobrepõem sempre as crenças e convicções de cada um.
Acreditamos em muitas falsidades e muitas vezes nos iludimos porque queremos ou precisamos de acreditar e de nos iludir. Duvidar, questionar, inquirir, desconfiar, dá trabalho. E, tal como num teste de Filosofia, acabamos muitas vezes por confundir o verosímil com o verdadeiro. Pode-se ter zero pontos, seleccionando apenas frases verosímeis. A verdade é uma coisa, as aparências uma outra completamente diferente.