05 fevereiro, 2013

AÇÚCAR E POLÍTICA

Édouard Boubat

Foi de festa no Reino Unido, o dia 5 de Fevereiro de 1953, ao ser anunciado o fim do racionamento de alimentos imposto em 1942. Foi um ver se te avias às lojas. Mas a corrida  para comprar doces foi a que mais impacto teve. O impacto foi tal, que o ministro da Alimentação ordenou um fornecimento extra de açúcar aos fabricantes para satisfazer a população, ávida de coisas doces. De facto, a carne, o peixe, os ovos, as batatas, o arroz, o feijão e a fruta são essenciais para uma vida equilibrada e bem sustentada. Mas são as coisas doces que dão sabor à vida.
O fim da política é criar a sociedade que melhor garanta às pessoas a carne, o peixe, os ovos, as batatas, o arroz, o feijão e a fruta. Uma sociedade na qual as pessoas sintam que têm uma vida normal, uma vida decente, onde sejam dignificadas, vistas como fins e não estúpidos e indesejáveis grãos de areia que só servem para atrapalhar o funcionamento dessa grande máquina que é o Estado.
Mas são as pessoas, individualmente, livremente, que deverão procurar a melhor maneira de comer o açúcar que dá sabor às suas vidas. A função do Estado não é fazer as pessoas felizes. A função do Estado é impedir que as pessoas se sintam infelizes por não terem o que faz delas cidadãos normais e decentes. Agora, como vai ser o açúcar comido, se é do branco ou do amarelo, se são rebuçados, bombons, chocolates, chupas, gelados ou bolos, se o chocolate é do mais doce ou do menos doce, se é com amêndoas, avelãs ou sem nada, se os bolos são de pastelaria normal, conventuais, mais secos ou molhados, com natas ou sem natas, ornamentados ou não ornamentados, isso, será cada pessoa que terá que descobrir.
Há pessoas para quem o açúcar está nas corridas de automóveis. Seja. Para outras poderá estar em passar o dia a ler, jogar às cartas, fazer fotografia, jardinagem, bricolage, viajar, aprender línguas, ver cinema, desporto ou simplesmente conversar. E isso não depende de governos melhores ou piores, de regimes, de sistemas políticos, de conjunturas. Isso é importante, repito, para o peixe, a carne, os ovos, o leite, as batatas ou o feijão. Quanto ao açúcar, cada um deve saber procurar e ser responsável pelo que come e não estar à espera que seja o Estado a enfiar-lhe pelas goelas abaixo.