12 fevereiro, 2013

A MINHA VIDA DAVA UM ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS

Roman Vishniac

Dei comigo a pensar na expressão "A minha vida dava um filme". Quando alguém diz que a sua vida dava um filme, isso implica uma visão do seu passado marcada pelas ideias de unidade e de continuidade, de uma sequência temporal entre várias partes que irão formar um todo coerente.
Habitualmente, diz-se isto para exprimir a ideia de uma vida que, por razões especialmente negativas ou positivas, não se confunde com as vidas normais e rotineiras das pessoas comuns ao longo das quais nada de assinalável acontece. Dar um filme pressupõe, neste sentido, qualquer coisa que vale a pena ser contado, que não pode ser esquecido e que irá naturalmente prender a atenção de quem a souber. 
Não é este o sentido que me interessa agora aqui mas um outro bem mais simples: o modo como cada um organiza a percepção do seu próprio passado. E se na verdade as pessoas não têm que transformar o seu passado num grande aventura, existe de qualquer modo uma tendência para representar cinematograficamente o passado. Seja numa história, seja num conjunto de vários episódios como numa série. Isto tem que ver com uma natural necessidade de ordem e harmonia que existe na mente humana, não apenas ao nível da percepção de imagens mas também na percepção de acções, acontecimentos, vivências. O que se passará na cabeça de uma pessoa a quem se pede para pensar globalmente no seu passado? Talvez uma espécie de trailer. Uma sequência rápida de acontecimentos condensados em meia dúzia de imagens fortes ou simbólicas: o primeiro dia de escola, um passeio à praia, uma doença, o primeiro beijo, uma visita de estudo, uma viagem à boleia, uma ida ao cinema, a morte de alguém, uma festa, etc. Mas se percepcionarmos o passado deste modo, não estamos a transformar a nossa vida num filme mas num conjunto disperso de fotogramas. Quero eu dizer com isto que mais do que uma visão cinematográfica do passado, talvez devamos ter uma visão fotográfica do passado.
Dizia o fotógrafo Harry Callahan que dos cerca de 40 000 negativos que possuía, gostava apenas de umas 800 fotografias. Significa isto duas coisas. A mais óbvia é que do muito que disparou pouco aproveitou. Mas significa ainda uma outra menos óbvia e a que mais me interessa. A separação entre os 40 000 negativos e as 800 fotografias não é feita entre duas unidades dispersas no tempo, duas unidades divididas entre um "antes" e um "depois". Não, está tudo misturado, interligado, colado. Ora, a nossa vida também funciona assim, sendo assim que deve ser percepcionada.
Vamos imaginar que estas crianças judias fotografadas por Roman Vishniac na Europa Central, sobreviveram ao Holocausto, tendo morrido velhas muitas décadas depois. Olhando retrospectivamente para o seu passado, terão tendência para ver um filme profundamente dramático ou até um filme de terror. Mas onde existe esse filme? Ou até mesmo os episódios de uma série? Em lado nenhum. A vida de uma pessoa, por muito boa ou má que seja, é feita de milhares e milhares de negativos dispersos, misturados, dos quais aproveitamos uma parte reduzida. E tanto é possível encontrar fotografias felizes no meio de centenas que denunciam uma vida infeliz, como fotografias infelizes no meio de centenas que denunciam uma vida feliz. 
Os filmes podem ser de terror, dramas, comédias, de aventuras, de amor. As vidas muito dificilmente reproduzem essa lógica cinematográfica. Mais do que tentarmos reconstruir filmes na nossa vida, deveríamos ir à procura de negativos fotográficos para aproveitar o maior número possível. E quanto mais conseguirmos aproveitar mais a nossa vida terá valido a pena, já contando com os seus piores momentos nos quais haverá também muitos risos bonitos que merecem ficar registados e que tantas vezes ficaram por revelar na câmara escura.