11 fevereiro, 2013

A ARTE LIBERTADA

Chegada do Comboio à Estação de Cioat [fotograma]

Encontramos na arte contemporânea, na pintura, escultura e literatura, alguns exercícios cépticos sobre o próprio poder da arte. No fundo, trata-se de artistas que, embora se afirmem através da arte e vivam da arte, sentem necessidade de desmistificar a importância dessa arte, ridicularizando o seu poder, pondo em causa, de um modo ácido e cínico, a hierática seriedade com que a arte quase sempre gosta de se impor ao seu público.
Sem querer pôr em causa a imaginativa ousadia ou o criativo humor de tais exercícios, não deixo de embirrar com quase todos eles. Pronto, embirro. Percebo que muitas vezes pode ser saudável a arte ganhar consciência dos seus próprios limites e relativizar a sua importância, mas a tontice subversiva com que se destroem tradições e gostos assumidos ao longo do tempo nunca deixou de me irritar.
Talvez por isso não devesse gostar dos filmes de Tarantino, incluindo o seu último, Django Libertado. Tarantino goza com o cinema, goza consigo próprio, assumindo claramente que não quer ser levado a sério. Fala de coisas sérias e dramáticas, como o holocausto (Sacanas sem Lei) ou o esclavagismo (Django Libertado) mas mostrando ao mesmo tempo interesse em assumir que não passa de uma criança crescida e genial que quer brincar ao cinema (Ó pra mim tão infantil!), como alguns pintores brincam com a pintura e alguns escritores com a literatura.
Quer isto dizer que, por uma questão de coerência, eu deveria embirrar com Tarantino, que os filmes dele deveriam irritar-me tanto como um urinol.. Mas não. Eu adoro os filmes de Tarantino, Tarantino diverte-me, saio apaziguado dos seus filmes. Em suma, sou um tarantinófilo. Ora, como explicar esta, pelo menos aparente, contradição?
A pintura, a escultura ou a literatura são artes milenares que souberam impor um merecido e intocável respeito. Artes que, vindas do fundo do tempo, alcançaram um estatuto nobre e aristocrata pelo modo como surgiram sempre associadas a temas sérios, religiosos, mitológicos, filosóficos, sendo muitas vezes a expressão sensível e lúdica de importantes conteúdos morais.
O cinema, por sua vez, tem uma origem e uma história completamente diferente. O cinema já nasceu popular e liberto de grilhões culturais, institucionais, morais, liberto do poder de certas classes sociais que precisavam da arte não só para se imporem como também para enaltecer, vangloriar e ostentar o seu poder. O cinema, por sua vez, apesar de a pouco e pouco vir conquistando um estatuto de seriedade e profundidade, nasce sob o signo do lúdico, do passatempo, do divertimento.
Ainda hoje não se entra num museu ou numa exposição como se entra num cinema. Por muito que gostemos de um filme e por muita importância que lhe possamos dar, a sua identidade foi construída livre de expectativas, exigências e preconceitos que sempre impusemos às outras artes. Diz-se que o século XX é século do povo. O cinema é, claramente, a grande arte do século XX.
Tarantino, pá, já estou à espera do próximo.