01 fevereiro, 2013

1 DE FEVEREIRO DE 1908

André Kertész

A Sicília de D. Fabrizio, Príncipe de Salina, prepara-se para um período de convulsão política, do qual a sua própria classe será vítima. D. Fabrizio, porém, um apaixonado pela Astronomia, tem o olhar suficientemente habituado às alturas para se poder dar ao luxo de desvalorizar as coisas cá de baixo. A sua escala não é certamente a escala de quem vê nas pequenas conjunturas políticas o centro da sua existência. Vale a pena ler estas passagens de O Leopardo:

Mas era tanta a calma que as descobertas políticas da manhã haviam trazido à alma do Príncipe, que este não fez mais do que sorrir daquilo que noutra altura lhe teria parecido insolência. Abriu um das janelas da torre: a paisagem exibia todas as suas belezas. Sob o fermento de um sol forte todas as coisas pareciam perder o peso: o mar, ao fundo, era uma mancha de pura cor; as montanhas que, de noite, lhe pareciam havido esconder terríveis armadilhas, eram agora massas de vapor prestes a dissolver-se; mesmo a torva Palermo, como um rebanho aos pés do pastor, estendia-se, saciada, ao redor dos conventos; no porto, os navios estrangeiros ancorados, enviados na previsão de distúrbios, não bastavam para pôr uma nota de perigo naquela calma majestosa. O sol daquela manhã de treze de Maio, embora longe do máximo da sua força, mostrava-se o autêntico soberano da Sicília: um sol violento e impudico, um sol narcotizante que anulava as vontades e mantinha todas as coisas numa imobilidade servil, embalada em sonhos violentos, em violências que participassem da própria arbitrariedade dos sonhos.
«Serão necessários muitos Vítor Manuéis para mudar este filtro mágico que nos vem lá do alto.»

 - Não somos cegos, meu caro Padre, somos apenas homens. Vivemos numa realidade móvel à qual procuramos adaptar-nos como as algas que se dobram sob o ímpeto das ondas do mar.(...) Deixemos que lá em baixo os Bendicós [Bendicó era o seu cão] persigam presas rústicas e que o cutelo do cozinheiro triture a carne de animaizinhos inocentes. À altura do observatório as fanfarronadas daquele e a crueldade deste fundem-se numa harmonia tranquila. 


Lembrei-me disto ao lembrar-me do que se passou no dia 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço. Nesse dia, morreram duas pessoas que não deveriam ter morrido. Por duas razões, uma formal e outra empírica. Da primeira, mais complexa, não irei agora falar. Digo apenas que se trata da mesma razão que me leva a ser contra a pena de morte como castigo. 
Quanto à segunda, antes de a explicar, deverei formular o seguinte problema: ainda que o acto de matar seja intrinsecamente imoral, há razões empíricas que possam justificá-lo? Sim, há. Por exemplo, o atentado contra Hitler deveria ter sido bem sucedido pois teria representado um enorme bem para a humanidade. Neste caso, a consequência de um acto mau seria moralmente superior à consequência decorrente da ausência desse acto.
Porém, no caso das mortes no Terreiro do Paço, a situação é completamente diferente, sendo isso demonstrado pela própria história de Portugal desde então. Não quero aqui discutir a Monarquia e a República como se fosse um Benfica/Porto dos regimes. O meu objectivo é precisamente chegar à ideia de que se trata de uma vã discussão pois nada nos pode garantir que Portugal teve um século XX melhor ou pior por ser uma república em vez de uma monarquia. Matou-se um rei para se instaurar uma república. E o que foi a I República? Toda aquela confusão que levou ao 28 de Maio de 1926 e a décadas de miséria e atraso. E hoje? Portugal é um país melhor por ser uma república? Ser república é intrinsecamente bom e ser monarquia intrinsecamente mau? Se assim for, como nos devem invejar, a nós e aos gregos, os ingleses, holandeses, belgas, dinamarqueses, noruegueses ou suecos. Empiricamente, não há portanto razões para pensarmos que o problema de Portugal em 1908 se devia ao facto de ser um regime monárquico. E os problemas de Portugal em 1925? E em 1958? E em 2013? Os regimes vêm e vão, presidentes, ministros e secretários de estado vêm e vão, as crises económicas, políticas e sociais vêm e vão. O que o Príncipe de Salinas percebe, assistindo com distância às convulsões do seu tempo, é que tudo isso é minúsculo, irrelevante, fugaz, efémero para um astrónomo.
Claro que a política é importante, são os nossos problemas que estão em jogo. E é por isso que votamos, porque acreditamos que o partido A resolverá melhor esses problemas do que os partidos B ou C. Mas isso é a pequena política, a política normal, a política que acompanhamos diariamente nos jornais para esquecer no dia seguinte. Política que, podendo ser melhor ou pior, mais competente ou incompetente, mais eficaz ou ineficaz, vale o que vale. Política onde há políticos e não profetas, salvadores, feiticeiros. A grande ilusão do dia 1 de Fevereiro de 1908, do dia 5 de Outubro de 1910, do dia 28 de Maio de 1926, do dia 25 de Abril de 1974, do dia 25 de Novembro de 1975 ou do dia 12 de Junho de 1985, é a ilusão de acreditarmos que qualquer coisa que transcende a política normal, irá resolver os nossos problemas e alterar radicalmente as nossas vidas.
É claro que as nossas vidas vão mudando, uma vezes para melhor, outras vezes para pior. Mas assassinar  pessoas apenas para se mudar de política, não é coisa que se justifique. Mesmo considerando que D. Carlos tenha sido um mau rei, haveria razões para o matar, assim como ao príncipe herdeiro? Nesse caso, por que não haveríamos de assassinar José Sócrates ou Passos Coelho, dois deploráveis primeiro-ministros? Não, porque assassinar pessoas é imoral e, neste caso, tal como no caso do nosso rei, que não é mesmo de Adolf Hitler, o que muda politicamente por via dessas mortes, não é nada de importante, comparado com o vil, bárbaro e abjecto acto de matar.
As políticas, aqui em baixo, na Terra, são iniciadas e acabadas pelos seres humanos em função das suas vontades. A vida, pelo contrário, é demasiado grande para ser decidida por vontades que valem tão pouco. E se o tempo tem um valor relativo, se o tempo passa, minuto a minuto, hora a hora, ano a ano (onde já vai o dia 1 de Fevereiro de 1908!), a morte, essa tem um valor absoluto.