23 janeiro, 2013

SEM DIRECÇÃO



Se pensarmos na história como um filme, teria, tal como o filme, personagens principais e figurantes, e o homem que aparece aqui morto seria claramente uma personagem. E uma personagem com um projecto social, uma ideologia, uma filosofia, um ideal. Morto, perdeu a consciência de tudo isso e a consciência de si como parte disso.
Porém, os homens que rodeiam o herói morto, sendo meros figurantes acabam também por não ter qualquer consciência de si e do que ali estão a fazer. O homem morto sabia por que tinha uma arma nos braços. Os  outros, apenas que tinham que matar o homem que tinha uma arma nos braços. Enquanto o primeiro sabia por que causa iria morrer, os outros não matam em nome de uma causa mas apenas porque lhes pagam para isso. São soldados como poderiam ser camponeses, operários ou mineiros. Olham para o troféu, exibem o troféu, mas muito longe de entender o verdadeiro significado do troféu, o que está em jogo com o troféu, o que representa historicamente o troféu. Não sabem o que é o socialismo ou o capitalismo, o que é a Guerra Fria, quem foi Marx, Bernstein ou Trotsky, a diferença entre revolução e reforma. Claro que os figurantes são importantes. Quem seriam Dario, Alexandre, Aníbal, Napoleão, Hitler ou Montgomery sem as suas tropas? Mas o que sabem as tropas do que andam a fazer? No fundo, não passam de massas cegas e acéfalas que avançam ao som de uma ideia lançada mas que eles apenas entendem como um assobio que os faz depois correr ou saltar como se fossem cães amestrados.
Ok, e então as personagens? Será que sabem mesmo o que andam a fazer? Não serão igualmente figurantes dentro de um argumento que eles próprios não dominam? Não terão apenas decorado e representado o pequeno papel de um filme que continua depois do seu desaparecimento mas já com outras personagens que hão-de vir?
Se calhar, todos nós, personagens e figurantes, somos igualmente demasiado pequenos para este grande filme que não sabemos bem como começou, muito menos como irá acabar e menos ainda quem é o realizador. Provavelmente haverá um argumentista e um realizador. Mas, deles, nem sequer um assobio conseguimos ouvir. Escrevesse eu em inglês e pensasse em director em vez de realizador e diria que actuámos sempre sem qualquer direcção.