20 janeiro, 2013

O VALOR DO VENTO

        Brassaï | Sous la Pluie


Ontem, por causa do vento, partiu-se a persiana do meu quarto. Como se isso não bastasse, tinha uns testes no vão da minha janela que ficaram ensopados por causa da força do vento que empurrou a chuva para o interior do quarto. O chão ficou também molhado e eu a espalhar toalhas para absorver a água. Fosse eu poeta e teria escrito isto:


Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

(Ruy Belo, O Valor do Vento)

Há poesia que resista a uma persiana partida, uma turma de testes encharcados e um chão molhado? Qual árvore, cabelos, inverno, verão, perfume das flores, música que jaz à beira-mar em agosto, qual carapuça, quando se tem uma turma de testes encharcados, uma persiana partida e o chão do quarto que parece o fundo de uma banheira depois de tomarmos banho.
Ó vento e chuva primordiais, elementos cosmogónicos que vindes do fundo do tempo, não fostes feitos para a cidade nem a cidade para vós. O vento e a chuva são bonitos nos poemas e os poemas ficam bonitos quando cheios de vento e de chuva, sobretudo quando metem cabelos a esvoaçar e molham corpos que caminham hieráticos para uma lareira que afugenta as forças telúricas como se a gente fosse a filha de Ryan na costa irlandesa a proteger-se do mal. 
Na cidade, porém, valem apenas uma enorme chatice e dor de cabeça. A cidade é asséptica e assim deve continuar a ser. Quem quer vento e chuva que os vá apanhar no campo, na montanha ou no mar, seja na costa irlandesa ou no raio que os parta. Razão tinha o Hegel: a natureza é estúpida quando se mete onde não é chamada. Não consegue perceber quando está a mais? Nota-se.