15 janeiro, 2013

METONÍMIA PROCURA-SE

André Kertész

Anda toda a gente preocupada porque a actual geração vai ser a primeira a viver pior do que a dos seus pais, porque a joie de vivre europeia não passará de uma melancólica recordação. Percebo que pense assim quem acredita num crescimento rumo ao infinito. Quem acredita que bem viver consiste num crescimento quantitativo das nossas possibilidades de acção. Que a direita pense assim, eu percebo. Quanto à esquerda, é grande a minha dificuldade em consegui-lo.
Nos anos 60, Alice Rossi, uma jovem universitária feminista, defendia ser um absurdo configurar a identidade feminina através da função maternal. Anos depois, a mesma mulher publica um artigo onde inverte por completo essa ideia. Como? Tornando forte o que antes considerava uma fraqueza: emancipar a mulher pelo que na sua identidade existe de radicalmente diferente do homem: a menstruação, a gravidez, o parto, enfim, o exclusivo poder da maternidade. Isto é explicado por Elisabeth Badinter em Le Conflit - La Femme et la Mère, da seguinte maneira: 

"Pour être les égales des hommes, les femmes ont renié leur essence féminine et n'ont réussi qu'à être les pâles décalques de leurs maîtres. Il faut, au contraire, revendiquer notre différence identitaire et en faire une arme politique et moral. Um nouveau féminisme mettant en avant chaque aspect de l'expérience biologique des femmes était né. Il exalte les règles, la grossesse et l'achouchement. La vulve devint la métonymie de la femme".

Para responder à pergunta "O que é ser de esquerda?", sigo  o mesmo tipo de raciocínio: ver sinais de força emancipadora onde antes se via fraqueza e desvantagens. Também a esquerda deverá encontrar uma identidade alternativa, um código genético que deve assumir e com o qual deve aprender a viver. Quando pensamos no que é ser de esquerda, jogamos habitualmente com conceitos económicos e sociais.  Há quem vá mais longe. O saudoso Eduardo Prado Coelho defendia que esquerda e direita se distinguem por razões estéticas. Eu vou ainda mais longe. A esquerda deve construir a sua identidade a partir de categorias existenciais e quase religiosas.
No Stalker (filme de Andrei Tarkovski, 1979), há um tipo que afirma desejar ser vegetariano mas o seu subconsciente pede um bife suculento. Se nós deitássemos a esquerda num divã iríamos encontrar uma auto-consciência de esquerda mas um subconsciente de direita, envolvendo os aspectos mais irracionais da natureza humana. Ainda que a esquerda defenda um modelo de Estado, de sociedade e de economia diferentes dos defendidos pela direita, o povo de esquerda segue um modelo existencial que reproduz o mais elementar senso comum que, por natureza, é de direita. Porque deseja o óbvio, o imediato, o mais fácil.
O povo de esquerda exige um modelo social e económico diferente mas cada pessoa, individualmente, sonha em alcançar o mesmo tipo de sucesso que as pessoas de direita assumem sem pudor. No fundo, o que distingue o povo de direita e de esquerda, é o pudor. Não é o conteúdo mas a forma, o estilo. O que as pessoas desejam para si e para os filhos e netos é precisamente o que deseja o mais elementar senso comum, só que mais disfarçadamente e com mais elegância e, sim, muitas vezes, mais bom gosto.
Um enorme erro. A esquerda deve assumir uma provocação quase religiosa. O que o cristianismo teve de revolucionário foi a sua ousadia provocadora: provocar as instituições mas também o senso comum. Cristo, depois S. Paulo e os primeiros cristãos, foram provocadores natos ao não proporem mais do mesmo para a vida das pessoas, mas uma renovação interior, uma metamorfose, um voltar a nascer. Para quê expulsar os vendilhões do templo, para quê fazer o sermão da montanha, para quê enaltecer o que está estigmatizado socialmente, para quê fazer desviar os olhos dos bens visíveis para outros que só no interior de cada um podem ser encontrados? Cristo estava muito longe de uma mesquinha mentalidade sindical. Cristo anunciou uma Boa Nova, invertendo por completo os valores vigentes.
Sem nunca abandonar o território da política e da economia, a esquerda, ainda que impopularmente,  deverá combater os seus fantasmas e assumir uma mensagem de renovação interior, propondo novos valores e uma nova forma de existência. Não se trata de defender a pobreza pela pobreza ou a humildade pela humildade. Não se trata de negar a saúde, a educação, os apoios sociais a que num país civilizado e moderno temos direito. Nisso, o Estado também deve, e muito, contribuir para ajudar as pessoas a serem felizes. Trata-se antes de reformular a nossa relação com a riqueza, descobrindo que não viver tão bem como viveram as gerações anteriores pode não ser assim tão catastrófico, reaprendendo a viver com o que se tem.
E tal como a mulher não deve ter inveja do pénis também a esquerda não deve ter inveja da obsessiva relação com a vida material, induzida por um modelo de sociedade que está muito longe de ser virtuoso como nos querem fazer querer. Quem sabe, se não poderá a pobreza, no seu sentido mais nobre e elevado, vir a ser um dia uma metonímia da esquerda?