04 janeiro, 2013

MA NUIT CHEZ MOI




Estive há dias a rever um filme que tinha visto há mais de 30 anos: o Ma Nuit chez Maud, um dos Seis Contos Morais de Éric Rohmer.
Vi-o pela primeira vez num cinema com capacidade para cerca de mil espectadores. Vi-o, desta vez, deitado na cama, com o portátil nos joelhos. E, tal como acontece com um livro que lemos na cama, também ia mudando de posição, umas vezes para a direita, outras para a esquerda, outras ainda de barriga para cima. Foi a primeira vez que vi assim um filme deitado na cama. Eu sempre achei que ver cinema a sério implicaria uma boa sala de cinema. Mas esta minha experiência de ver um filme deitado na cama com um pequeno ecrã nos joelhos, esteve muito longe de me desiludir.
É evidente que esta miniaturização de um filme, transferido de uma sala de cinema, onde o sigo num ecrã enorme e longínquo na companhia de dezenas ou centenas de espectadores, para os meus joelhos e quase encostado ao meu nariz, muda a minha maneira de ver cinema, não significando isto uma diferente percepção do filme. Não vejo dois filmes diferentes, a minha percepção do filme não muda consoante o lugar onde o vejo. Não. O filme que vejo na sala de cinema e sobre os joelhos é exactamente o mesmo. Só que não me estou a referir à minha experiência do filme mas à experiência de mim mesmo a ver o filme. Eu é que não sou o mesmo ao vê-lo na sala e ao vê-lo nos meus joelhos, uma vez que existem dois níveis diferentes de intimidade na minha relação com ele.
Ver o filme sobre os joelhos transforma-o num objecto mais íntimo. Um pouco como um livro que se tem na mão. Eu posso saber que o livro que leio neste momento foi lido (olhado) por milhares de pessoas. Pode até ser um best seller. Mas ao lê-lo na minha mão, em contacto com o meu corpo, estando nesta ou naquela página em função de um ritmo de leitura marcado por mim, olhando para uma página, a qual, no momento em que a olho, é absorvida pela solidão do meu olhar, consigo transformá-lo num objecto que é meu, possuído por mim. Com o filme que vejo nos meus joelhos acontece a mesma coisa. Sobre este pequeno ecrã apenas os meus olhos existem e o balanço do filme sobre os meus joelhos que se movimentam, transformam-no num objecto íntimo para mim, um objecto privatizado pelo meu olhar. Isto não significa que o filme me pertença, que pareça ter sido feito para mim, que a minha relação com ele seja monogâmica. Não, o filme é de todos, de todos os que o viram, vêem ou verão. Mas acaba por ser como uma amante que, apesar de ter uma vida social e pública (médica, professora, operária ou comerciante; tendo amigos ou familiares; conhecida de vista por muitos), há um momento em que a sua existência se concentra exclusivamente no olhar do amante.
Esta experiência de posse íntima é parecida com o que acontece com uma criança quando brinca com um carro ou um comboio. Uma diferença de escala que revoluciona por completa a sua relação com o objecto. Como diz Bachelard (La Poétique de l'Espace) "Je possède d'autant mieux le monde que je suis plus habile à le miniaturiser. Mais, ce faisant, il faut comprendre que dans la miniature les valeurs se condensent et s'enrichissent". O mesmo se passa, por exemplo, quando alguém possui na mão uma torre Eiffel ou o Empire State Garden em miniatura ou, noutro contexto, quando visita um sítio como o Portugal dos Pequenitos.
Eu disse "quase a mesma experiência" pois o parelelismo disto com o filme que eu vejo miniaturizado nos meus joelhos não funciona completamente. No caso das miniaturas da torre Eiffel, de um carro ou de uma casa, a representação é dominada pela imaginação, ou seja, a minha relação mental com o objecto não está sujeita a leis objectivas da percepção mas a um trabalho da imaginação, uma vez que lhe atribui livremente um sentido que não corresponde à sua verdadeira realidade. Mas um filme não é, tal como uma casa, uma árvore, um comboio ou uma mesa, um objecto tridimensional ocupando um espaço. Um filme é um objecto dimensional feito de luz projectada numa superfície plana. Os objectos tridimensionais são ontologicamente determinados por um tamanho. O tamanho faz parte da sua identidade, fosse o seu tamanho diferente e a sua identidade também seria diferente. A partir daqui, aumentá-lo ou diminui-lo passa a ser da ordem da imaginação, seja com um objecto, seja com pessoas (Polifemo na Odisseia ou os liliputianos de Swift).
Os filmes, todavia, não têm um tamanho. Ao contrário de arranha-céus e casas de aldeia, pessoas grandes e pequenas, não há filmes grandes e pequenos. Os filmes são grandes e pequenos em função da duração, não em função do modo como ocupam tridimensionalmente o espaço. Daí que ver um filme nos meus joelhos, fazendo com que os seus objectos (personagens, casas, carros, árvores) surjam mais pequenos do que no ecrã gigante do cinema, não implique um trabalho da imaginação mas apenas uma mudança de escala, como acontece no projecto de um arquitecto que, vendo a maqueta, acaba por ver o próprio edifício.
Daí que ver o filme nos meus joelhos não se trate do mesmo tipo de intimidade da que acontece com a miniaturização de um objecto. Neste caso, torno-o íntimo, reduzindo o seu tamanho, imaginando-o diferente do que é na realidade. No caso do filme, trata-se mais de uma intimidade entre mim e mim do que entre mim e o filme. Ou melhor: uma intimidade entre mim e mim mediatizada por um objecto (o filme) que fomos educados a ver no cinema. Não muda a minha consciência do filme, o que muda é a minha consciência de mim a ver o filme. Muito provavelmente, um garoto actual que tenha sido desde sempre habituado a ver filmes num portátil, não irá ter esta experiência, ao contrário do que lhe acontecerá com um carro, um comboio ou numa ida ao Portugal dos Pequenitos. Eu, que aprendi a ver cinema de outra maneira, é que sinto uma cisão na minha consciência. Para o garoto que aprendeu a ver filmes num portátil, um filme é um filme. Eu, acabando de ver um filme num portátil vejo o mesmo filme que ele mas descubro-me um outro.