25 janeiro, 2013

  Lee Jeffries

Como pode Aristóteles falar na felicidade como fim último das nossas acções, sem nunca ter tido automóvel, mexer em gadgets, ir ao cinema, a um restaurante, ou nunca ter feito turismo de massas? É verdade que não o podia ter feito pois nada disso existia. Mas o facto de pensar na felicidade sem isso existir  prova que não é disso que depende a felicidade.
Significa isto que podemos voltar as costas ao nosso tempo e viver como no tempo de Aristóteles? Não. Mas isso obriga-nos a pensar na felicidade num sentido relativo, estrito ou empírico, e na felicidade num sentido lato ou abstracto. Há um padrão de felicidade que depende sempre de um contexto histórico, geográfico, cultural. Ser feliz na Europa, hoje, não é o mesmo que ser feliz na Europa há 200 anos ou ser hoje feliz na Amazónia. Dificilmente será feliz, hoje, na Europa, uma pessoa que viva sem alguns bens, ainda que não de primeira necessidade, e ainda bem que assim é, pois revela um nível de exigência do qual não devemos prescindir, uma vez que existem níveis de evolução na vida humana dos quais devemos usufruir. Trata-se, porém, de uma felicidade relativa pois mostram a história e a geografia que não é preciso existirem para se ser feliz e que muito menos são causa de felicidade, tal como o frio é a causa da neve. Outra coisa é pensarmos no que nos pode fazer verdadeiramente felizes e que não dependa especificamente do que cada época apresenta, com a sua cultura, mas também com o seu poder material e económico. E se ainda hoje conseguimos compreender Aristóteles talvez isso signifique que podemos também continuar a aprender com alguém que nada teve do que pensamos não poder deixar de ter para podermos ser felizes.