08 janeiro, 2013

ESTUPIDEZ AOS PONTAPÉS

                                         Diane Arbus |The King and Queen of a Senior Citizen's Dance

A histérica mediatização do mundo actual, que alimenta o nosso insaciável desejo de sermos informados minuto a minuto, sobre tudo e sobre nada, ou de estarmos sempre conectados a qualquer coisa, seja uma televisão, um telemóvel ou uma rede social, faz com que hoje o futebol seja não apenas o que é, um jogo entre duas equipas num relvado, mas uma pletórica actividade discursiva que dura dias, antes e depois desse jogo. Claro que o futebol foi sempre tema de conversa à mesa, no emprego, barbearias, lojas de ferragens ou adros de igreja. Mas uma coisa é falar de futebol através de uma prática socialmente genuína, outra será transformar o futebol numa actividade virtual, feita de sombras projectadas na parede como na caverna de Platão. E se falar na caverna é também falar de estupidez, falemos então de estupidez.
O futebol, enquanto discurso, é um fenómeno marcado por generosos níveis de estupidez. Dirigentes, treinadores, jornalistas, jogadores, adeptos, parecem todos concorrer entre si para ganhar o campeonato da estupidez, numa espécie de teatro do absurdo. Veja-se, por exemplo, esta afirmação, transformada em letras garrafais como destaque de uma notícia. O treinador do Benfica está, claramente, a assumir a sua estupidez. Se o conceito de invencibilidade não existe no futebol, se nem o actual Barcelona é invencível, por que raio haveria o Benfica de o ser? E como é que tamanha estupidez poderá ser notícia? Porque há um jornalista estúpido que se lembra de transformar uma frase estúpida numa notícia estúpida. E por que razão faz isso? Porque há pessoas estúpidas que perdem tempo a ler notícias estúpidas em vez de se dedicarem a coisas que não sejam estúpidas. Veja-se ainda esta afirmação de um jogador do Leverkusen. Como se fosse possível uma equipa jogar para não ganhar. 
Imaginemos um tipo que diz: "Ok, está na hora de ir almoçar". Certo. Mas o que pensar de um tipo que dissesse: "Ok, está na hora de ir almoçar uma vez que o ser humano não pode viver sem comer e, já agora, espero não sentir fome depois de matar a fome."? Pensaríamos que não bate bem da bola. À primeira até seríamos capazes de achar alguma graça. Mas se passasse a vida a falar assim, deixaríamos de ter paciência para o ouvir. Mas o que ele diz é exactamente o que dizem Jorge Jesus e o jogador do Leverkusen. A diferença é que nós continuamos a ouvi-los. Muito provavelmente porque somos tão estúpidos quanto eles, tão estúpidos que nem nos apercebemos disso.  
Mas pronto, uma das coisas que aprecio na estupidez do futebol é o facto de ser assumida, ao contrário do que se passa em tantas outras actividades em que as pessoas fingem ser inteligentes e profundas. Eu encaro toda esta estupidez do mundo do futebol com condescendência e até (pronto, admito, sou um bocadinho lamechas) alguma ternura. Qualquer coisa de parecido com a nossa relação com os animais. É verdade que, comparado com um ser humano, um animal é estúpido. Mas não levamos isso a mal, nem passamos a desconsiderá-lo ou a gostar menos dele por causa disso. Com o futebol é a mesma coisa. As coisas são o que são, e sendo a estupidez honesta, transparente, assumida, só temos mesmo que a aceitar e até achá-la gira.
O que me preocupa, repito, é a estupidez disfarçada de inteligência, sabedoria, competência técnica, a estupidez ex cathedra, refinada, doutorada e engravatada. A estupidez de políticos, economistas, empresários, sindicalistas, fazedores de opinião. A estupidez que faz dizer o óbvio em função dos óbvios interesses de quem o diz mas com a gravidade intelectual, sobriedade axiomática ou imparcialidade epistemológica de um cientista. A estupidez como expressão de uma ideologia que fala para se dizer a si própria embora sob a aparência de conhecimento, ciência, profunda reflexão e exacerbado espírito crítico. 
A estupidez no futebol é como o próprio futebol: não passa de um jogo, vivência lúdica de gente rezingona que dá aquilo que tem, puro divertimento que não aquece nem arrefece. A outra estupidez, essa sim, é perniciosa. E temos que ser nós a tomar bem conta de nós próprios para não sermos arrastados por ela. Porque está em todo o lado. Aos pontapés.