06 janeiro, 2013

ECCE HOMO

  Eugene Smith | Tomoko no Banho

Diz Steiner (Gramáticas da Criação) que A Metamorfose é a fábula-chave da modernidade, o livro certo para entendermos a marcha atrás na evolução a caminho da bestialização que o século XX nos deixou. Tratar-se-ia, pois, de um texto com um sentido claramente sociológico. Não me parece. Nem me parece que o século XX seja isso.
Li-o duas vezes e quer-me parecer que há duas grandes questões no livro, diferentes mas interligadas, nenhuma delas relacionadas com o que defende Steiner: a solidão absoluta como resultado da ausência do amor incondicional, e a relação entre o corpo e a alma. Começo pela primeira.
O que mais impressiona na história é a progressiva dissonância entre o estado interior e o estado exterior de Gregor. À medida que os dias vão passando, Gregor vai-se transformando cada vez mais naquilo. Fechado no seu quarto imundo e fétido, cada vez mais repulsivo, repugnante, nojento, inumano. O seu corpo não passa já apenas de um insecto gigante que rasteja pelo quarto. Só que, interiormente, psicologicamente, continua a ser a mesma pessoa. Uma das passagens mais chocantes é quando, já perto do final, aquilo, aquela coisa, se encontra no quarto ouvindo a a sua irmã tocar violino na sala com os pais:

"Gregor rastejou um pouco mais e colocou a cabeça o mais perto possível da porta, a fim de que os seus olhares se encontrassem. Dar-se-ia o caso de ele não passar de um animal embora a música o emocionasse tanto? Parecia que ela lhe abria um caminho em direcção a um alimento desconhecido pelo qual ele tanto ansiava. Resolveu rastejar até junto da irmã e puxar-lhe o vestido, para que ela compreendesse que devia vir para a sua companhia, pois que ali ninguém apreciava a sua música tanto quanto ele a apreciava. Não permitiria que ela saísse jamais do seu quarto - pelo menos enquanto ele vivesse - pois para alguma coisa de útil lhe serviria o seu terrível aspecto; colocar-se-ia diante de todas as portas, afastando intrusos com o seu grunhido; mas a irmã não seria forçada a permancer ali; deveria viver, espontâneamente, com ele; sentar-se-ia, perto dele, no sofá, e ouviria o que ele tinha a dizer; dir-lhe-ia então, confidencialmente, que tinha sido seu desejo mandá-la para o Conservatório e que planeara comunicar tudo à família por ocasião do último Natal, sem dar ouvidos a quaisquer objecções. Infelizmente aquele infortúnio sucedera-lhe demasiado cedo".

É comovente esta ligação de Gregor à irmã, a empatia conseguida através da música. Naquela família, aquela coisa, aquele rastejante e repugnante ser vivo, é o que mais aprecia a música saída do violino da irmã.
Porém, na sala, essa mesma irmã diz ao pai:

"- Precisamos livrar-nos dessa coisa!- exclamou Grete. - É a única saída. O pai precisa de tirar da cabeça a ideia de que isso que ali está é Gregor. Já acreditámos nisso demais - e aí está a causa da nossa infelicidade. Como é que isso poderia ser Gregor? Se fosse realmente ele, já teria há muito percebido que não poderia viver no meio de criaturas humanas, e ter-se-ia ido embora voluntariamente".

Repare-se na violência do discurso. Enquanto Gregor se preocupa com a felicidade da irmã, sendo ainda quem melhor sente a música tocada por ela, esta atribui àquilo, àquilo que foi em tempos o seu irmão, a causa da sua infelicidade. Só que aquilo, aquele corpo imundo e repugnante, continua a albergar a alma de Gregor, os sentimentos e emoções de Gregor, a memória de Gregor, enfim, toda a identidade psciológica de Gregor. E nós, leitores, vamos assistindo ao desenrolar da história a partir do interior de Gregor, pensando com ele, sentindo com ele, vendo o mundo através dos seus olhos.
Gregor é rejeitado, irremediavelmente atirado para a solidão do seu quarto nauseabundo. Porquê?  O que fez ele de errado? O seu pecado? A sua culpa? Nada, Gregor é apenas rejeitado por ser.  Não pelo patrão, pela sociedade, por uma instituição, por pessoas anónimas. Gregor foi, de repente, rejeitado por aqueles que mais o amavam e protegiam e que iriam continuar a amar e a proteger, não fosse aquilo. Talvez seja esta então a moral da história: na vida pode haver sempre um aquilo que irá alterar ou fazer perder o amor que sentimos pelo outro, seja numa relação entre dois amantes ou entre dois amigos, seja numa relação entre pais e filhos ou entre irmãos. Não há amor absoluto, amizade absoluto, afectos absolutos. Somos amados, desejados, queridos mas haverá sempre um possível momento em que tudo pode ser mudado e passarmos a ser rejeitados, ainda que nada tenhamos feito para isso. É breve a passagem do encantamento do Sermão da Montanha, das curas e dos milagres aos risos e escárnios perante a miséria do Gólgota.

Mas punhamo-nos agora no lugar da irmã e dos pais de Gregor. No que observam através dos olhos. Onde está, de facto, Gregor, no meio daquela carapaça, daquele conjunto de antenas e patas pegajosas, e que vai deixando uma baba nojenta pelo chão da casa? Sim, onde está Gregor ali? Será que aquilo ainda continua a ser Gregor? Continua, aquilo é Gregor. 
Kafka obriga-nos a pensar. A pensar no corpo. Não no que é um corpo, como fará um cientista contemporâneo ou um filósofo como Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino ou Espinosa, mas num sentido mais existencial e perturbado como S. Agostinho: o que tem o corpo de mim, o que sou eu que seja o meu corpo, o que sou eu naquele emaranhado de carne, ossos, músculos, tendões, vísceras e pele. Claro que há corpos mais bonitos e corpos mais feios, rostos mais bonitos e agradáveis, rostos menos bonitos e até rostos que roçam a repugnância. Porém, sob essa capa plástica que nos confere uma aparência agradável ou pelo menos suportável, há todo um mundo de ossos, tendões, vísceras, orgãos, sangue e outros líquidos que estão apenas disfarçados. No que pensaria o Papa Inocêncio III quando afirmou: "Tu, homem, andas pesquisando ervas e árvores; estas, porém, produzem flores, folhas e frutos, e tu produzes lêndeas, piolhos e vermes; daquelas brotam azeite, vinho e bálsamo, e do teu corpo escarros, urina e excrementos"? Claro que nós percebemos onde ele quer chegar. Espeta-nos violentamente com o corpo na cara para que, apercebendo-nos da nossa miséria física, nos dediquemos à católica purificação da alma. Mas não devemos desprezar o fundo. Ele tem razão. O que é inquietante nestas palavras é o facto de nós também sermos aquilo. Ninguém quer reconhecer-se nas suas vísceras, ossos, tendões ou nojentas matérias líquidas que circulam anonimamente pelo corpo. Pior ainda: nós somos mais aquilo do que Gregor no seu corpo de insecto. Porque enquanto o seu corpo de insecto não passa de uma ficção literária saída da cabeça de um criativo escritor, nós estamos mesmo nesse corpo ou esse corpo está mesmo em nós. Somos aqueles corpos, ainda que disfarçados por uma película exterior que nos serve de protecção. Mesmo o homem mais belo do mundo ou a mulher mais bela do mundo, são aquilo. E, dentro daquilo, como dizia Inocêncio III, há escarros, urina e excrementos.
Ecce homo, parece querer dizer-nos Kafka, amargamente. Claro que aprendemos a viver dissimulando o peso do corpo. Ou melhor, o peso negativo do corpo. Claro que vivemos obcecados com o corpo e nem sequer nos damos ao trabalho de o disfarçar. O corpo elegante, o corpo bem ornamentado com roupas bonitas, o corpo perfumado e betumado com cremes. Queremos ser todos gajos bons e gajas boas pois quanto "mais bons e mais boas" formos, mais seremos desejados, amados, queridos, invejados, disputados. Mas quando a máscara se esvai, quando o acidente ocorre, quando a doença surge, quando ficamos queimados, quando envelhecemos, enfim, quando os holofotes do espectáculo se apagam e o pano cai pesado sobre o palco, a plateia esvazia-se e pensa-se já no próximo espectáculo. Gregor é o homem que descobriu a solidão absoluta, descoberta na solidão de uma alma que nunca mudou mas que também pouco vale num mundo sensível que, desde Pitágoras, queremos disfarçar, mas do qual muito poucos conseguem fugir.