24 janeiro, 2013

É TUDO GENTE MORTA


Este encontro entre um pequeno e frágil filósofo e um robusto guerrilheiro, não é um encontro entre um filósofo e um guerrilheiro. Sartre não é um filósofo, Sartre é "o" filósofo. Nesta altura, ele é, por antonomásia, a Filosofia, o intelectual por excelência, o maître à penser, o escritor profundo mesmo para quem nunca tenha lido uma linha de Filosofia ou achasse o seu teatro demasiado intelectual. O cidadão comum podia nunca ter lido As Moscas, As Mãos Sujas ou O Diabo e o Bom Deus, mas sabia que eram esses os textos a ler. Che, por sua vez, é muito mais do que um guerrilheiro. É um mito, um herói, um ícone, o símbolo da luta por um mundo melhor. E ainda que Sartre seja um filósofo engagé, vendendo jornais nas ruas de Paris, não deixa de ser um pensador que tem tanto de teórico como Che de prático. Ora, é a este encontro entre a teoria e a prática que não consigo ficar indiferente.
Teoria e prática são velhas rivais, umas vezes bem relacionadas, muitas vezes de costas voltadas. Qual delas terá mais valor? Qual a que tem mais impacto? O que tem mais peso: uma caneta ou uma espingarda? Mas não é a isso que agora quero responder. Quero apenas notar o seguinte. Quem, hoje, lê Sartre? Quem anda com o seu teatro debaixo do braço como nos anos 60?  E que peso têm as suas ideias políticas? O que significa ser estalinista ou maoísta em 2013? E Che? Onde está o mundo de Che? As ditaduras da América do Sul, a URSS, o castrismo enquanto projecto político que apaixonou jovens, intelectuais, artistas?
Um é teórico, o outro é prático mas ambos não passam hoje de fantasmas. E que importa discutir o valor da teoria e da prática quando tudo na vida tende para a fantasmagoria, para a dissolução, para a insignificância, para o esquecimento, sejam ideias, sejam acções? Imagino o impacto desta fotografia no seu tempo: um concílio dos deuses. Muito diferentes, mas deuses. Conversam, olham-se, estudam-se e certamente respeitam-se, e no que dizem parece estar a chave que desvela verdades ocultas ao comum dos mortais. Os deuses falam, trocam ideias, reflectem e o comum dos mortais assiste, reduzido à sua passiva invisibilidade.
Sabemos hoje, porém, que são ambos tão mortais quanto nós, e ambos com uma propensão para a invisibilidade. Não  é apenas para as pessoas que existem os cemitérios. Existem também para as ideias e para as acções de quem lá está, para mundos e vidas nos quais, outrora, se decidiam os grandes desígnios da humanidade e que, entretanto, se revelaram não ser mais do que o pó a que estavam já previamente condenados no dia em que se encontraram, ainda que disfarçado pelo reflexo brilhante dos holofotes que, porém, rapidamente se apagaram.