07 janeiro, 2013

CETTE BLESSURE

                                                                      André Gelpke

Há coincidências engraçadas. Andava  para escrever sobre esta fotografia quando calhou rever o Ma Nuit chez Maud. O filme, que decorre sob o lema de Pascal (nomeadamente a sua célebre aposta), está centrado num tipo, Jean-Louis, católico praticante, que se apaixona por uma jovem estudante que costuma encontrar na missa, ao mesmo tempo que uma outra mulher, Maud, inteligente, insinuante e sexualmente, digamos, disponível, tenta seduzi-lo. A dicotomia, porém, não é assim tão linear. Rohmer não é um maniqueísta que vai colocar frente a frente a mulher anjo e a mulher demónio, ficando o torturado jovem católico como S. Paulo, dividido entre o bem que deseja mas não faz e o mal que não deseja mas faz. Jean-Louis recusa o convite de Maud para dormir com ela, escolhendo antes atirar-se à sua companheira de liturgia dominical, aliás, com sucesso.
O filme começa praticamente com uma missa na qual os fiéis acompanham o padre no Pai Nosso. E é no exacto momento em que se pede a Deus para não deixar os homens cair na tentação, livrá-los do mal e do pecado, que Jean-Louis desvia o olhar para a jovem igualmente devota, começando assim a denunciar o seu interesse nela. Reza-se o Pai Nosso, mas não é para o Céu que se elevam os olhos de Jean-Louis.
Partindo de uma ideia dos padres do deserto ("Só há um único pecado: é a distracção") dizia o padre José Tolentino de Mendonça, há dias, na revista "2": "A grande tentação é viver uma vida exilada. Os exílios acabam por, à primeira vista, ser lugares de apaziguamento ou de distracção. A nossa casa também nos coloca exigências, às quais nem sempre estamos disponíveis para responder. Há uma coisa muito inofensiva nas confissões. Quando não se tem muito para dizer, diz-se: 'Eu distraio-me na oração'. Parece uma coisa banal, para começarmos uma conversa. Mas se formos olhar bem é a questão fundamental. 'A atenção é a oração, a oração e a atenção', dizia a Simone Weil. A atenção é que nos faz estar naquilo que fazemos, em cada gesto, é que nos faz habitar o presente".
Jean Louis distrai-se, não está atento. Os padres do deserto sabiam do que falavam: as pessoas facilmente se distraem com o que têm à frente dos olhos, desviando-se do seu verdadeiro caminho. Neste caso, não é coisa pouca que distrai Jean-Louis durante a oração: uma mulher. Trata-se, neste caso, de uma distracção que vai do espiritual para o sensível, mais concretamente, do religioso para o amoroso. Mas também podemos pensar numa distracção em sentido oposto, esta, porém, mais cínica e tortuosa: uma distracção que vai do físico para o espiritual. E é aqui que começam precisamente interrogações e perplexidades, tendo como ponto de partida a  fotografia de Gelpke.
Há um capítulo de O Ser e o Nada que Sartre dedica à má fé, distinguindo-a da mentira. Não vou entrar em pormenores. Digamos apenas que a má fé é uma forma de mentir a si mesmo, bem mais complexa e subtil do que mentir. Quem mente sabe claramente que mente, por exemplo, uma pessoa que diz ter uma profissão que nunca teve ou uma idade que não corresponde à verdade. Quem mente, fá-lo com laivos de perversidade enquanto a má fé não passa de um mentir a si mesmo para sacudir a responsabilidade do capote, ou uma forma de não assumir a liberdade que está colada à sua existência.
Para explicar a má fé, Sartre dá como exemplo uma mulher que vai ter um primeiro encontro com um homem, sabendo à partida que ele está interessado nela, tendo por isso consciência de que terá de tomar uma decisão sobre o que irá acontecer entre eles mas sem querer comprometer-se logo com a situação. Neste sentido, vai concentrar-se sobretudo nas manifestações de respeito e discrição do outro, desvalorizando (dissimulando) tudo o que possa sugerir interesse sexual. Pensar explicitamente em sexo é demasiado cru e desrespeitoso para a imagem que tem de si própria. Ela é uma mulher respeitável e não quer reduzir-se a alguém que se encontra com um homem em busca de sexo. Por isso concentra-se em tudo o que na conversa sugira outro tipo de interesses. Podem conversar sobre livros, cinema, Miguel Relvas, os jogos da selecção nacional, a subida do IRS, vinhos ou as respectivas profissões. Tudo num registo sério e elevado como se estivessem num colóquio e ela precisa disso para se libertar da pressão. Não, não está a mentir enquanto fala ou ouve. Tudo o aquilo é verdadeiro e genuíno. Mas aparentemente genuíno, pois não deixa de ser um engano, uma simulação. Direi eu, uma distracção.
Entretanto, o homem pega-lhe na mão. Que fazer? Dou agora a palavra ao filósofo:

"Abandonar [entregar] esta mão é consentir por si mesma no flirt, é comprometer-se. Retirá-la é romper esta harmonia dúbia e instável que engendra o fascínio da hora. Trata-se de adiar o mais possível o instante da decisão. É sabido o que então se produz:  a jovem abandona [entrega] a sua mão, mas não se apercebe de que a abandona. Não se apercebe disto porque se dá o caso de ela ser, em tal momento, pura e simplesmente espírito. Arrasta o seu interlocutor até às regiões mais elevadas da especulação sentimental, fala da vida, da sua vida, mostra-se sob o seu aspecto essencial: uma pessoa, uma consciência. E, entretanto, o divórcio do corpo e da alma está consumado; a mão repousa inerte entre as mãos quentes do seu parceiro: nem consentidora nem resistente - uma coisa.
Diremos que esta mulher está de má fé. Desarmou as condutas do seu parceiro ao reduzi-las a não serem senão o que são (...). Mas ela permite-se fruir o seu desejo, na medida em que o apreenderá como não sendo aquilo que é, ou seja, em que ela reconhecerá a transcendência dele. Enfim, sentindo embora profundamente a presença do seu próprio corpo - a ponto de talvez ficar perturbada -, ela realiza-se como não sendo o seu próprio corpo e contempla-o da sua altura como um objecto passivo ao qual podem sobrevir acontecimentos, mas que não é susceptível de os provocar nem de os evitar, porque todos os seus possíveis estão fora dele."

Talvez este texto de Sartre ajude a perceber melhor a crueza e provocação desta fotografia. Muito mais crua e provocadora  do que a tão escandalosa e amaldiçoada Origem do Mundo de Courbet. O que há de errado nesta fotografia, não sendo o caso no quadro de Courbet, é precisamente o rompimento da harmonia dúbia e instável de que fala Sartre. Olhemos atentamente para ela. Esta mulher não está nua em cima de um cama, esperando o avanço do amante. Não surge, como acontece com os amantes que se despem para o sexo, como sujeito e objecto de desejo, substituindo a sua identidade social, profissional, familiar, por uma identidade puramente erótica. Não se trata, por isso, de um erotismo natural, assumir o corpo como natural objecto de desejo e desejante. Por outro lado, também não se despe no quarto para se deitar ou na casa de banho para entrar na banheira, contextos nos quais o corpo assume naturalmente a sua nudez à medida que se vai libertando da roupa.
A mulher continua completamente vestida, rodeada de livros e de quadros numa sala ou escritório, exibindo orgulhosamente a sua condição social, até pela roupa que veste. Um ambiente cultural e intelectual. Ora, é precisamente isso que vai romper a harmonia dúbia e instável que tanto procuramos. Perante o seu gesto tudo se modifica. Como se se abrisse uma ferida na silenciosa e erudita harmonia daquele espaço. Um gesto aglutinador cuja força de gravidade tudo atrai, fazendo com que tudo o resto se evapore, deixe de ter importância, se reduza à sua insignificância. Perante este desvelamento, esta desocultação, que valor passa a ter um livro ou um quadro na parede? Estará esta mulher a falar? Se estiver, que interesse terá o que ela está a dizer? Será importante? Será fútil ou profundo? Perante este centro, toda a restante realidade fica desfocada. E, ao contrário de Courbet, que mostra um centro sem periferia, no caso desta fotografia o fotógrafo mostra ambas. E ao mostrar o centro mais acentua a sua importância em detrimento da periferia desfocada.
E é precisamente aqui que está o seu lado provocador. Será o fotógrafo, sartriano? Estará a querer dizer-nos que, como a rapariga de Sartre, nos enganamos a nós próprios? Que, no fundo, para além deste centro de gravidade, tudo não passa de distracção, dissimulação, fingimento, divertissement, pudico pretexto para mantermos as aparências? Será este centro não apenas a origem do mundo mas igualmente o fim do mundo, o fim para o qual tudo se dirige? Uma enorme brecha cravada na condição humana, uma ferida, como lhe chama Ferré na canção, que talvez ajude a explicar por que razão precisemos de nos distrair e iludir, fingindo que somos almas cicatrizadas.