18 janeiro, 2013

BORGESSO

Aleksandr Malin

Por ironia do destino, um dia antes de ter acabado este livro (sim, uma capa horrível, ao nível do que se vê por aí), veio parar-me às mãos uma entrevista com Maria Kodama. 
Questionada sobre o facto de não ter refeito sentimentalmente a sua vida após a morte de Borges, explica que os amigos lhe apresentaram pessoas mas que sempre recusou a ideia. Justifica, dizendo que já tendo dado metade da sua alma a Borges, seria injusto para a outra pessoa com quem ela viesse a ter a relação. Ligada desde os 16 anos ao escritor, segundo ela, para aprender, pois aprender é ser livre, considera que o escritor haveria de se tornar o centro da sua existência e ela uma prisioneira da liberdade, como ele lhe dizia a respeito da sua existência.
Eis um daqueles casos em que não se trata da vida imitar a arte mas em que a arte e a vida se confundem. Idolatricamente apaixonada por Borges, ligada a ele desde os 16 anos, Maria Kodama tornou-se ela própria uma personagem borgesiana, uma rapariga tornada mulher como se fosse uma criação literária de um escritor que labirinticamente mistura o real e o possível, o acaso e a necessidade, a liberdade e o determinismo, o mundo objectivo e a ficção, o factual e o contrafactual.
Entretanto, no dia seguinte, termino o romance de McEwan. Um excelente livro (mais um) do escritor inglês, com um final absolutamente surpreendente pelo seu jogo de espelhos. Uma rapariga que, ao longo de todo o  livro, relata, na primeira pessoa, a sua história de vida e sobretudo a sua relação com um homem por quem se apaixona. Porém, no final, descobrimos que é ela própria que está a ser relatada por aquele cuja história ela relata.
Uma sequência alucinante, portanto, feita de duas histórias que quis o acaso se colassem na minha consciência de leitor. Uma mulher que é real mas que continua a viver no sonho criador de um escritor morto. Outra mulher que, já não sendo real por natureza, torna-se ainda menos real quando descobrimos que vive na cabeça de uma outra personagem que julgávamos viver na cabeça dela.
Depois disto, resta-me perguntar quem raio sou eu? E não é que me divirto a pensar que até seria giro ser um leitor saído da imaginação de um escritor que me obriga, através das minhas leituras, a descobrir a minha própria irrealidade?  No meio disto só me chateia arriscar-me a ser uma personagem de um escritor de terceira categoria cujas histórias deveriam ficar fechadas à chave algures numa gaveta esquecida. Mal por mal, antes ser Quixote mesmo que escrito por Pierre Menard.