01 janeiro, 2013

2013

                                                                     Joseph Koudelka

Não entendo lá muito bem por que razão desejamos "bom ano" uns aos outros. Até parece que os anos são gavetas nas quais os acontecimentos ocorridos ao longo do tempo vão ficando arrumadinhos e identificados com etiquetas como se estivéssemos a falar de vinhos: 1956, 1964, 1978, 1989, 2008, 2013. Eu não percebo nada de vinhos mas oiço os entendidos dizer que o ano X do vinho Y é excelente ou que o ano Y do vinho X não é grande coisa. Com o vinho eu até percebo que assim seja. As uvas apanham-se uma vez por ano e as condições meteorológicas fazem com que a qualidade do vinho desse mesmo ano fique irreversivelmente marcada pela positiva ou pela negativa. 
Mas o que pode significar, não para as uvas, mas para nós, um bom ou mau ano? Um ano é composto por um conjunto de meses que por sua vez são compostos por semanas que por sua vez são compostas por dias que por sua vez são compostas por horas que por sua vez são compostos por minutos. Ora, quando dizemos um "bom ano" ou "mau ano" estamos a criar um quadro mental que se sobrepõe virtualmente à bruta realidade dos factos. Tal como o espaço de Aquiles e da Tartaruga, também o tempo pode ser dividido em parcelas cada vez mais pequenas. Quando, sei lá, no dia 25 de Maio de 1984 demos uma gargalhada numa sala de cinema a ver um filme, a unidade temporal dessa gargalhada não é o ano de 1984, nem o mês de Maio, nem sequer o período de tempo entre as 17.05 e as 19.30, ainda que todas essas indicações temporais estejam formalmente correctas. Se a gargalhada teve uma duração de 6 segundos durante o 25º minuto do filme, são esses 6 segundos que deverão ser considerados reais ao fazermos a contabilidade temporal da gargalhada.
E é precisamente nesta estrutura atómica que nós vivemos. É nesta estrutura atómica que estamos alegres ou tristes, mais felizes ou infelizes (apesar de a felicidade não ser uma emoção enquadrada atomicamente como o medo, o nojo ou a alegria), que a vida corre melhor ou pior. Por isso, o que significa um ano bom ou um ano mau? Um ano é feito de milhares de vivências, factos, acasos, emoções, sentimentos e outros inúmeros processos mentais. Tudo isso marcado pela dispersão e uma desordem não passível de ser arrumada numa gaveta temporal: 2011, 2012, 2013. Mesmo que digamos que um ano foi mau porque aconteceu qualquer coisa de terrível, seja na nossa vida pessoal, seja na vida colectiva, o ano não pode ser reduzido a esse acontecimento.
Claro que dividir a vida em anos como forma de catalogar a nossa existência, dá uma ilusão de arrumação, de ordem, de racionalidade. Como os ficheiros num arquivo. Mas não passa mesmo de uma ilusão. O que acontece ao longo da vida é demasiado amplo para poder ficar preso numa camisa de forças temporal. Ainda assim, desejo um bom ano a quem passar por aqui.