30 dezembro, 2012

VANITAS COM PABLO


Quando Althusser mata a mulher pensa-se logo que não se trata de um homem que mata a sua mulher mas de um filósofo que mata a mulher. É diferente de um engenheiro que mata a sua mulher. E quem diz um engenheiro diz um médico, um agente de seguros, um operário ou até mesmo um professor de filosofia. Um grande filósofo não é um vulgar e desconhecido professor de filosofia. Uma mulher assassinada por um filósofo deverá ter, presume-se, uma leitura filosófica. No caso de Althusser, tal como outros farão em relação às estrelas, o acto será interpretado a partir de sinais, mais conscientes ou mais inconscientes, no seu pensamento, na sua obra, espreitando sorrateiramente nas entrelinhas das suas construções conceptuais. Fosse Sartre a assassinar Simone de Beauvoir e os sinais seriam outros. E outros e outros e outros seriam se fosse Alain, Aron ou Merleau Ponty a matar as respectivas mulheres. Quer isto dizer que, no caso de um filósofo, o seu eu empírico deverá estar sempre subordinado ao seu alter ego, em virtude de uma distorção imaginária da sua identidade.
Isto acontece sobretudo com pessoas cujas actividades artísticas ou intelectuais acabam quase sempre por subsumir a sua natureza humana simplesmente humana. Actividades artísticas e intelectuais que tudo explicam, tudo justificam ou até, nalguns casos, tudo legitimam. Matar a mulher será certamente um caso extremo. Mas, por exemplo, um artista bêbedo não é um bêbedo: é um artista bêbedo. É muito diferente de um médico bêbedo, um operário bêbedo ou um professor bêbedo. Um louco é um louco mas um artista louco não é um louco: é um artista louco.
É por isso que eu gosto muito desta fotografia de Cartier Bresson na qual vemos Picasso no funeral de Paul Éluard. Picasso surge aqui reduzido à simples condição de um velho homem de gabardina que acompanha um amigo até à sua morada final. Paul Éluard pode ter sido um grande escritor mas, aqui, não passa de um simples homem morto. Picasso pode ter sido um dos grandes artistas do século XX, mas vêmo-lo aqui completamente despojado dos seus atributos artísticos e de toda a imagética que viria a configurar a sua identidade: Picasso a pintar, Picasso junto a um trabalho seu, Picasso com uma das suas mulheres, Picasso na sua vida boémia. Nesta fotografia nada disso existe. Picasso é apenas um velho triste e abalado ao ser confrontado com a inevitável brutalidade da morte. Morte cujo poder transcende qualquer quadro, qualquer mulher, qualquer momento que reflicta a joie de vivre artística.
A morte da mulher de Althusser às mãos do seu marido Louis nada teve de filosófico. Face ao jogo com a morte, ficamos sempre a perder. Não há disfarces, máscaras, simulações, idolatrias, distorções de identidade. Perante o jogo com a morte somos apenas pobres mortais para os quais o cubismo, o impressionismo, o fauvismo ou o expressionismo nada vale. E para quem não há períodos azuis, brancos, vermelhos ou amarelos. Ou qualquer sistema filosófico, qualquer conceito, qualquer teoria. Apenas o negro da tristeza e da desolação existe. Quase sempre o esquecemos. Mas haverá sempre um dia em que nos iremos lembrar. Para Picasso, este foi certamente um desses dias.