21 dezembro, 2012

PARALELO 38

      Billy Wilder|Sunset Boulevard [fotograma]

Admiring friend:"My, that's a beautiful baby you have there!"
Mother: "Oh, that's nothing - you should see his photograph!"
Daniel Boorstin, The Image - A Guide to Pseudo-Events in America

Olha-se para a história e não se vê vazio. A história parece um palco onde, num ritmo frenético, decorrem sucessivos espectáculos anunciados com luzes de néon: Guerra do Peloponeso, Queda do Império Romano, Crise de 1383-85 com o povo de Lisboa na rua e a batalha de Aljubarrota, o Brasil a ser descoberto, a noite de São Bartolomeu, Revolução Inglesa, mais Americana, mais Francesa, fora a Industrial que vem depois, o nosso terramoto, falado e discutido pelo mundo fora, a Guerra Civil Americana, 5 de Outubro, Crash Bolsista, II Guerra Mundial que veio depois da primeira, Holocausto, assassinato de JFK, americanos aos tiros no Vietname e os hippies todos a cantar na quinta de Woodstock, Salgueiro Maia no largo do Carmo de megafone na mão. Olha-se para a história e está sempre a acontecer qualquer coisa de verdadeiramente importante. Uma sequência de momentos cinematográficos que tornam o passado sempre colorido, atraente, espectacular, especial. A história parece o trailer de um filme, onde, em 3 minutos, assistimos a uma alucinante sequência de planos.
Há nisto um enaltecimento romântico dos factos que não deixa de ser artificial e ilusório face à verdadeira realidade. Não falo de falsificação mas apenas de idealização dos factos. Os factos existem mas condensados em espectaculares figuras de cartaz. Não há tempos mortos, não há silêncios, não há uma banalidade quotidiana onde as coisas são apenas aquilo que são sem sequer perdermos tempo a olhar para elas. Apenas, sob os holofotes apontados para o palco, momentos intensos e vibrantes transformados em espectaculares arquétipos para memória futura.
Ora, é um pouco isto que também se passa com as pessoas num mundo de relações virtuais e exposição virtual face aos os outros: Facebook, Meetic, Badoo ou a própria blogosfera de cariz mais pessoal, onde a vidinha de cada um é aberta à humanidade como se fosse a vizinha da frente. Tal como acontece com a história, não se trata necessariamente de dar uma imagem falsa de uma pessoa. Ao expormo-nos virtualmente perante os outros não temos que estar a mentir, ludibriar ou dissimular. Apenas a possibilidade de surgir perante o mundo com uma identidade na qual tudo parece importante e relevante. Trata-se, no fundo, de um eu ideal que se vai sobrepor a um eu empírico, eu empírico ao qual não temos acesso, do mesmo modo que também já não temos um acesso empírico aos factos históricos sobre os quais pensamos. É quase como uma truncagem fotográfica em que se faz apagar o que não interessa ou não é importante, irremediavelmente remetido para o sótão da invisibilidade.
Quem somos neste mundo virtual? Somos alguém sempre com alguma coisa importante para contar, seja um profundo pensamento filosófico, seja uma anedota picante. Há sempre uma frase de Fernando Pessoa que nos maravilhou, sentindo-se logo uma necessidade quase homeostática de a partilhar com as centenas de amigos que fomos conquistando. E quem diz a frase de Pessoa, diz também o quadro de Salvador Dali que nos faz pensar. A festa de baptizado do sobrinho fofo e da qual mostramos dezenas de fotografias não é uma festa de baptizado mas a festa. As minhas férias foram as férias, os meus filhos são os filhos, o assado no forno e mesa posta que exponho perante a humanidade é o jantar, a minha birra matinal é uma birra antropológica que merecia destaque na primeira página de um jornal.
Estamos sempre a aparecer, sempre a ser, sempre a fazer, sempre a conhecer, sempre a sentir e a vibrar, sempre a ser sempre. Há sempre qualquer coisa para dizer, sempre qualquer coisa para partilhar. E sempre o lado mais puro e ideal de cada um de nós, geograficamente no hemisfério do prazer, onde a identidade pessoal é construída através do mesmo processo da identidade utópica de um país (sei lá, a Coreia do Norte), que elide a sua verdadeira realidade para ficar concentrada num conjunto de sinais aos quais a nossa identidade fica idealmente reduzida.