07 dezembro, 2012

P DE CHEGADA


A cena final do Casablanca, a célebre cena no aeroporto, era para ser filmada em estúdio. Mas por causa da falta de meios devido à guerra, acabou mesmo por ser filmada  num aeroporto. Daí a neblina que envolve os amantes e que dá à sua despedida uma aura ainda mais intensa e dramática.
Uma despedida num aeroporto, não é a mesma coisa do que uma despedida numa rua, num jardim ou num café. Um aeroporto, tal como uma estação de comboios ou de autocarros, ou um cais de embarque, é um não-lugar, um lugar onde não se está, mas do qual se parte ou ao qual se chega. E se esse lugar estiver mergulhado numa neblina outonal, a poética da partida ou a poética da chegada será sempre maior. Parte-se sem ver o futuro mas o mesmo acontece quando se chega. Conhecemos o lugar onde se está, por muita que seja a neblina. Mas quando se parte ou se chega, o futuro ganha uma aura de mistério, de imprevisibilidade, como se essa neblina purificadora limpasse todo o passado, tornando tudo de novo possível, um novo recomeço, uma nova esperança. O Outono será, por isso, sempre mais romântico do que o Verão ou a Primavera, por muito bela que possa ser a natureza no seu esplendor. O Outono, com o seu frio e a sua neblina, faz-nos esquecer mais o mundo, atirando-nos para dentro de nós próprios, aumentando assim a poética da interioridade.
Sabemos como acaba o Casablanca mas jamais saberemos como recomeçam as suas vidas depois do avião partir. O avião partiu, mas se o avião parte é porque haverá um outro aeroporto onde o avião irá chegar. As partidas são sempre tristes mas, para compensar, as chegadas podem ser felizes. P pode ser de partida mas também pode ser de Paris. E Paris, mais do que um lugar, é uma ideia. Uma ideia que, porém, tem o seu local de chegada, ponto de partida para descobrir a cidade depois e neblina se dissipar.