15 dezembro, 2012

O OUVIDO ENCOSTADO À PORTA

   Dmitri Baltamants

"- Diga-me, por que é que vai para a guerra? - perguntou Pierre.
- Porquê? Não sei. Tem de ser. Além disso, vou... - Fez uma pausa. - Vou porque esta vida que levo aqui, esta vida...não me agrada!" Guerra e Paz, Livro I, cap. 5

Comecei a ler o Guerra e Paz mais cedo do que previa graças a um ensaio de Isaiah Berlin chamado O Ouriço e a Raposa - Um Ensaio sobre a Visão da História de Tolstoi. Ouriço e raposa que vai buscar a um verso de Arquíloco que reza assim: "A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante".
Ora bem, para Berlin, Platão, Lucrécio, Pascal, Hegel, Dostoievski, Nietzsche ou Proust (em graus diferentes), são ouriços. Heródoto, Aristóteles, Montaigne, Shakespeare, Erasmo, Molière, Goethe, Pushkin, Balzac ou Joyce, são raposas. Qual será a razão desta distinção?
Os ouriços, "remetem tudo para uma perspectiva central e única, para um sistema, em função do qual compreendem, pensam e sentem", reduzem toda a complexidade do mundo a um princípio organizador único e universal. Têm ideias mais centrípetas do que centrífugas, isto é, convergem todas para um centro que as justifica e sustenta. Já as raposas, "prosseguem vários fins, muitas vezes desconexos e contraditórios", "O seu pensamento é disperso e confuso, movendo-se em vários planos", sem integrar a variedade de experiências e objectos numa "visão imutável e abrangente".
A tese de Berlin a respeito de Tolstoi é a seguinte. Tolstoi é uma raposa mas quer ser um ouriço. Não vou agora explicar porquê. Limito-me apenas a dizer que é uma raposa uma vez que não acredita na visão da história que é dada pela ciência. A ciência histórica fala-nos de factos, factos, factos. Depois, ao querer explicar racionalmente esses factos, acaba por se limitar a uma visão exterior e superficial dos mesmos, muito longe de poder revelar as suas verdadeiras causas.
Ora, o grande objectivo de Tolstoi seria escrever um romance graças ao qual se pudesse entender o fluxo histórico indo ao encontro da "textura real da vida, quer dos indivíduos, quer das sociedades, em alternativa ao quadro irreal apresentado pelos historiadores". Teoricamente, claro. Teoria enquanto sistema que  submete a pluralidade dos factos ao seu poder organizador e explicativo.
Entende-se assim melhor excerto que se lê em cima, um diálogo entre Pierre e o príncipe Andrei. Na ciência histórica estuda-se uma guerra com base nas motivações políticas, económicas, sociais e ideológicas. Tolstoi vai mais ao fundo. Ouvindo, por detrás da porta, uma conversa entre dois homens na intimidade de um lar, durante a qual emerge a alma de um deles expressa nos seus melancólicos pensamentos. Tolstoi tem razão: qual o historiador que consegue ouvir uma conversa atrás da porta? Só um romancista o poderia fazer.