26 dezembro, 2012

O MANTO DE CEBES

                                                                Orson Welles | Citizen Kane [fotograma]

Num mundo materialista e consumista como o nosso, é muito interessante observar a resistência da época natalícia face ao desgaste de outras datas que vamos vestindo e deixando de vestir conforme as modas. Por exemplo, o 5 de Outubro. Durante anos, vestiu-se o 5 de Outubro com grande entusiasmo. Hoje, está morto e enterrado depois de décadas de agonia republicana. Pensemos no 25 de Abril. Tantos anos a ser efusivamente comemorado mas cada vez mais puído e desgastado pelas marcas do tempo. Ainda se veste, é verdade, mas quase com aquela obrigação formal de quem veste uma roupa para um casamento ou baptizado. E o Natal? Como é possível, depois de tantos séculos que assistiram a brutais mudanças e convulsões sociais, económicas, políticas, ideológicas, culturais, continuar a comemorar o Natal, por muito exaustas e ansiosas que andem as pessoas, se lamentam do dinheiro que gastam, do trabalho que dá, do tempo que se perde para isto ou para aquilo, do trânsito, dos supermercados e lojas a abarrotar de gente?
O Natal é não só um objecto de desejo mas um objecto de desejo que se deseja eternamente. Será por sermos cristãos e desejarmos ansiosamente celebrar o nascimento do Menino Jesus? Não. Sermos cristãos não passa cada vez mais de uma mera formalidade com o único propósito de nos conferir uma identidade cultural e contribuir para uma certa, cada mais relativa e irrelevante, coesão social.
O 5 de Outubro ou o 25 de Abril estão no domínio da política. São datas que invocam mudanças de regime, sociais, económicas e políticas. Porém, por muito que gostemos dessas mudanças, também sabemos que a nossa vida está longe de se esgotar nessas mudanças que, por sua vez, estão longe de serem as coisas mais importantes nas nossas vidas. Daí o fascínio pelo Natal. Muito mais do que um animal político, o homem é um animal simbólico. De costas voltadas para o político, vive-se, no Natal, um período das nossas vidas marcados pelo fascínio e o Maravilhoso. Pronto, está bem, o Natal já não é o que era. Porém, já não havendo o Maravilhoso de outrora, continua-se a viver a ideia do Maravilhoso. Não havendo já o fascínio de outros tempos, vive-se o fascínio pela própria ideia de fascínio, agarramo-nos com unhas e dentes ao que resta ainda do fascínio e, na noite de Natal, lá estamos todos fascinados pelo fascínio. Quando as pessoas desejam ”Bom Natal!” umas às outras, estão a desejar o quê? O que é um bom Natal? O Natal é uma noite em que se janta e, horas depois, se oferecem umas prendas, e com almoço no dia seguinte. Pronto, o Natal é isso. Então, porquê, um ”Bom Natal”? Para nos lembrarmos que é Natal e que é bom pensar que é Natal mesmo que o Natal seja apenas aquilo. Natal é a ideia de Natal. Apenas isso. É muito pouco? Não, é quase tudo.
Num dos mais famosos diálogos de Platão, o Fédon, discute-se a imortalidade da alma, cuja natureza é diferente da do corpo. Enquanto o corpo, coisa entre coisas, é corruptível, a alma, por sua vez, imaterial, é incorruptível. Cebes, um dos opositores desta tese, discutindo com Sócrates, recorre a uma analogia engraçada para mostrar que a alma, apesar de poder resistir, algures, mais do que o corpo, não resiste eternamente. Fala de um tecelão que vai usando vários mantos ao longo da vida. Tal como nós, que vamos sobrevivendo às calças e camisas que vamos deixando de usar, também o tecelão sobrevive aos diferentes mantos que se vão corrompendo. Só que, afirma Cebes, há-de chegar um ponto em que o próprio tecelão acaba por morrer, não sobrevivendo ao último manto que vestia. Daí que, para Cebes, também a alma acaba um dia por perecer com o corpo.
O Natal é, de certo modo, o manto de Cebes. Confortável, acolhedor e, seja em que regime for, com que partido a governar for, em que situação económica e social for, sempre pronto para nos agasalhar e aquecer. Nós vamos morrendo ao longo dos séculos mas o manto cá fica para os outros que virão   poderem vestir. As modas passam mas jamais deixaremos de pensar na ideia do que verdadeiramente nos agasalha e aquece.