14 dezembro, 2012

NEM FEIOS, NEM PORCOS NEM MAUS, APENAS BRONCOS

       Alfred Eisenstaedt

Costuma-se considerar a sensibilidade cultural um bem em si mesmo e condição para um cidadão normal ter uma vida boa e gratificante. Nós, professores, gostaríamos que todos os alunos estivessem ávidos de conhecer e de terem um  elevado nível cultural, enfim, ter ali à frente 30 alunos deslumbrados a ouvir e a aprender. 
Temos, porém, que ver o ponto de vista de toda a gente e não nos limitarmos a projectar os nossos desejos e valores de classe média com formação universitária que, ingenuamente, constrói um modelo ideal e único de ser humano. Neste sentido, não só defendo que a sensibilidade cultural não tem que ser um bem em si mesmo, mas, indo mais longe, que quanto mais baixa for, melhor será para muitas pessoas..
Como não vivemos numa sociedade utópica, nem toda a gente poderá ser escritor, pintor, escultor, instalador, fotógrafo, cineasta, actor, músico, programador cultural, professor, antropólogo, sociólogo, historiador, arqueólogo, arquitecto, filósofo ou simplesmente um esteta rico que vive ociosamente a sugar a beleza do mundo. Eu sei que é aborrecido e desagradável, mas, até porque fazem falta, a sociedade irá sempre continuar a ter pedreiros, carpinteiros, canalizadores, operários, empregadas de limpeza, manicures, vendedores de electrodomésticos, guarda-costas, porteiros de instituições, cozinheiras, agricultores em aldeias do Minho e Alentejo, ou pescadores em Vila do Conde, Peniche ou Olhão. Em suma, dezenas de outras profissões para as quais o ser culto ou ter sensibilidade estética será tão relevante como um aquecedor a óleo na Guiana Francesa.
Imagine-se uma pessoa que acorda todos os dias de manhã para ir carregar baldes de cimento numa obra ou uma outra que sai de casa para vender artigos da Moulinex. Ora, quanto menos cultas e mais culturalmente insensíveis forem, menos constrangidas se sentirão para irem trabalhar e menos angustiante e ansiogénica será a construção da sua auto-estima e auto-conceito. Pense-se num trolha que adore música barroca, pintura impressionista, ler ou ver cinema independente em salas para meia dúzia de pessoas com ar alternativo. Claro que este trolha não existe e devemos dar graças a deus por não existir. Imagine-se o que seria uma pessoa assim, o seu sofrimento por ter que fazer aquilo em vez de ter uma profissão e um modo de vida mais em consonância com os seus gostos e a sua sensibilidade. Sei lá, imagine-se o grau de infelicidade do José Luís Peixoto a dar serventia a pedreiro em vez de passar a vida a escrever e a viajar para sítios bonitos para falar dos livros que escreve.
Um trolha tem tanto direito a ser uma pessoa feliz como um arquitecto vestido de preto e óculos redondos. Por isso, quanto mais bronco ele for como pessoa melhor será para a sua identidade. Será muito mais feliz, andando de tronco nu lá na obra a imaginar que é o Rambo a lutar no Afeganistão contra os russos, do que estando a fazer cimento na betoneira com uns phones nos ouvidos, deleitado a ouvir Pierre Boulez.
Se não se pode voar será então preferível não ter asas. Uma andorinha tem asas e usa-as para voar. Muito bem. Um cão não vive angustiado por não poder voar pois, não tendo asas, nem sequer pensa nisso. Agora imagine-se o sofrimento de uma galinha que tem asas mas não consegue voar. É como dar um chocolate a uma criança e dizer que não o pode comer. Ora, um trolha culto e com sensibilidade cultural seria como uma galinha. Por isso, mais vale não ter asas e o assunto fica logo arrumado.
Em função disto, pensando no direito de todos à felicidade, talvez não fosse má ideia recuperar o modelo platónico de uma sociedade fortemente hierarquizada e com classes sociais bem distintas quanto à sua formação e modo de estar no mundo. Defendo, pois, que a escola e a alta educação deveria ser apenas para jovens com elevadas expectativas científicas, intelectuais e culturais. Todos os outros, deveriam ser dela excluídos. Claro que todos devem aprender a ler e escrever mas apenas para poderem ler jornais desportivos, revistas cor de rosa, as legendas dos filmes de porrada ou comédias românticas, consoante seja macho ou fêmea ou ainda para poderem escrever as suas aventuras e estado de alma no Facebook.
Isto sim, é pensar numa sociedade onde todos tenham o seu direito à felicidade e uma vida boa, sem angústias existenciais por não se ser assim ou assado ou complexos de inferioridade por desiludir os desejos utópicos de uma classe média que sonha com uma sociedade em que todos sejamos iguais. Se no desporto nem todos conseguem ser recordistas olímpicos porque haveria de ser assim na sociedade? Coitados dos jogadores de futebol que jogam nos distritais ou na 3ª divisão se vivessem frustrados por não jogarem na I Liga. Ainda bem que existem esses campeonatos para que todos possam praticar futebol com prazer e orgulho com a consciência de serem bons nesses mesmos campeonatos.