29 dezembro, 2012

CULTURA MADRASTA

      André Kertesz | Série On Reading

Veio, no Público de ontem, um artigo sobre o ISCPSI, a escola que forma os oficiais da Polícia de Segurança Pública. Entre cadeiras como História e Organização Policial, Defesa Pessoal ou Balística e Munições, os alunos recebem uma formação na área das Humanidades. Manuel Valente, professor de várias disciplinas de ciências policiais, é peremptório: "Como é que eu posso meter polícias a actuarem na rua sem eles conhecerem Kant? Como é que nós poderíamos explicar aos nossos cadetes o estado a que o país chegou sem os meter a ler 'As Farpas'? Como é que um oficial de polícia pode fazer bem o seu trabalho sem ter consciência da sua história e da cultura do país? Como é que, sem dar a conhecer os grandes autores portugueses, eu posso esperar forma uma polícia mais humanista em Portugal?" E remata, dizendo que, há 10 anos, os  recentes incidentes  do dia 14 de Novembro teriam sido bem piores, não fosse uma formação mais global e humanista do corpo policial.
Achei a ideia interessante mas resolvi estendê-la para um plano mais alargado: a política. Pergunto assim até que ponto um político com uma formação humanista, literária ou filosófica, poderá ser um melhor político, tal como acontece com um polícia. A minha resposta é negativa.
É possível um professor de Matemática que nada sabe de Literatura, Pintura, Cinema, História ou Filosofia ser competente? É. Para ensinar trigonometria ou funções não precisa de saber quem foi Ariosto, que Giotto não é uma simples marca de lápis de cera ou que Totó não foi o inventor do Totoloto. E quem diz um professor de Matemática, dirá um engenheiro que estuda a quantidade de betão numa obra ou um médico que trata uma úlcera no estômago.
Ora, estará um político na mesma situação? Parece-me que sim.  Um bom ministro da saúde não precisa de ter lido o Doente Imaginário, para se ser um bom ministro da Justiça não é preciso ler Kafka, um ministro de Assuntos Sociais não precisa de conhecer as fotografias de Sebastião Salgado, Lewis Hine ou Dorothea Lange, ou de ter passado a pente fino o neo-realismo italiano. Directamente falando, um país não se gere com cultura, seja literatura, pintura ou cinema. Mais: curiosamente, nesta mesma edição do Público faz-se publicidade a uma biografia de Mário Soares, político com uma sólida formação cultural e humanista. Formação essa que, todavia, não o impediu de ter sido um primeiro-ministro extremamente impopular e com decisões muito difíceis, num plano político, social e económico que lhe valeram críticas não muito diferentes daquelas que atingem hoje as mais elevadas figuras do Estado, nomeadamente, o chefe do governo e o presidente da república, dois homens culturalmente broncos. 
Não é o facto de Passos Coelho, Miguel Relvas ou Cavaco Silva ser gente ignorante e culturalmente indigente, que faz deles maus políticos ou o facto de alguém ser culto e humanista que faz dele um político que sabe tomar decisões sensatas ou que visem directamente o bem estar do povo por si governado. A questão não se resolve, portanto, empiricamente, pois a história está cheia de exemplos de políticos cultos e humanistas que levaram grandes coças eleitorais.
Não é a cultura, nomeadamente uma cultura humanista, ou a falta dela, que condiciona positiva ou negativamente as decisões políticas mas a ideologia. Pensemos no tempo em que havia em Portugal (e na Europa) políticos que, cultural e intelectualmente, nada tinham que ver com os actuais indigentes que nos governam, sejam do PS ou do PSD. Mário Soares, Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e Freitas do Amaral eram cultural e intelectualmente pares. Porém, quem amava Cunhal execrava Sá Carneiro, Freitas e Soares, quem amava Sá Carneiro execrava Cunhal. Não se desejava ou rejeitava um político pela quantidade de livros que lera, por ser melómano, gostar de pintura ou citar frases latinas durante um jantar.
Homens ignorantes e sem uma cultura humanista como Passos Coelho ou Cavaco Silva podem tomar exactamente a mesma decisão que, nas mesmas circunstâncias, tomaria um homem como Mário Soares, sendo as consequências sociais exactamente as mesmas. Na urgência do hospital, na comida que se tem no prato, na perda do emprego e na subida da electricidade com a qual nos aquecemos no Inverno, não importa se a decisão foi tomada por um político ignorante ou culto, nem é o ser culto ou ignorante que irá estar na base de uma decisão política, social ou económica. Miguel Portas e Paulo Portas, homens igualmente cultos e com uma formação humanista, tomariam decisões políticas, sociais, económicas e até culturais, radicalmente opostas.
Será, porém, a mesma coisa ser governado por um político culto ou por um político ignorante? Não. Mas trata-se de uma diferença essencialmente psicológica, tal como acontece em relação a um pai. Para um filho, o mais importante num pai não é ser culto ou especialmente inteligente mas ser atento, dedicado e mostrar amor. Agora, se for isso mas ao mesmo tempo culto, melhor. É melhor ter um pai que nos ama e que, para além disso, nos conta histórias na cama, fala de heróis da mitologia e nos ensina a gostar de música ou de pintura ou a ver cinema, do que um pai que nos ama mas é ignorante. Mas a cultura ou a ignorância não é o critério. Será mesmo preferível ter um bom pai ignorante do que um péssimo pai inchado de erudição e sapiência. O mais importante é a sensibilidade, a dedicação, o amor a uma causa.
Por isso, o que choca em políticos como Passos Coelho, Vítor Gaspar, Cavaco Silva ou num réptil vil e repugnante como Miguel Relvas, não é o serem ignorantes. É o seu fanatismo e cegueira ideológica mas, sobretudo, a sua implacável frieza e atroz hipocrisia perante os sofrimentos de um povo que espera de um governante muito mais do que um político que apenas governa, como um engenheiro que apenas realiza um projecto ou, num caso extremo, um oficial alemão que gere um campo de concentração como se de uma mera fábrica se tratasse. Um pai pode não ter dinheiro para dar de comer aos filhos. Mas continua a ser um pai. Nada que ver com um pai que, para além de ser bronco, não quer saber dos seus filhos.