09 dezembro, 2012

BLACK SABBATH

                                                                     Elliot Erwitt

Ontem, sábado, no supermercado, dirijo-me para a caixa prioritária, a menos congestionada no momento, talvez por haver muita gente que julgue tratar-se de uma caixa exclusiva e não prioritária. Estava eu então à espera que o senhor à minha frente acabasse de pagar, quando oiço atrás de mim uma voz a interpelar-me. Uma jovem, ligeiramente grávida, com um carro atafulhado de compras, pedindo-me para passar à minha frente. Eu, claro, recuei logo. Automaticamente e sem pensar pois vou sempre para aquela caixa com a consciência de que tal pode vir a acontecer.
Acontece, todavia, pormenor não despiciendo, que eu ali estava apenas com uma garrafa de vinho na mão, ao contrário da jovem ligeiramente grávida com o seu carro cheio de compras e comprinhas. A história é simples e morre já aqui: uma jovem chega à caixa com o seu carro cheio de compras, vê à sua frente um homem bem mais velho do que ela com uma simples garrafa, coisa que demoraria uns 30 segundos a pagar e, embora não estivesse propriamente com ar de ter uma ambulância à sua espera por estar em risco de abortar, serviu-se da lei para retirar um benefício pessoal.
A história é simples mas não quero deixar de pensar na diferença entre a lei e a boa educação. Dura lex sed lex, eu sei, sempre soube e sempre saberei. Mas é nestas situações que vem ao de cima o meu lado evangélico: a lei é feita para o homem, não é o homem que é feito para a lei. Daí Jesus, que para além de ser um deus era também uma pessoa bem educada e com bom feitio, ter curado ao sábado, apesar de a lei não o permitir.
Aquela moça grávida, vendo-me já com a garrafa para pagar, bem poderia ter mostrado ser bem educada e simpática comigo. Eu, como cavalheiro que sou, teria amavelmente agradecido com um sorriso e prosseguido viagem. Preferiu aplicar a lei e eu, obediente, submeti-me ao seu poder.
Ela ganhou 30 singelos segundos. Eu voltei a perder de novo um pouco mais de fé na natureza humana.