17 dezembro, 2012

AMOR


Sim, pode-se dizer que o filme Amour é sobre o amor, sobre a velhice ou sobre o amor na velhice. Mesmo assim não chega. Sendo um filme sobre o amor e a velhice, falta um elemento fundamental para chegarmos ao fulcro da questão: o corpo. Mais concretamente, a essência do corpo na essência de uma relação amorosa. O amor não existe sem o corpo uma vez que não existem almas puras que se amem sem a mediação de um corpo. Neste sentido, a grande questão do filme é a essência do amor condicionado pela mudança do corpo.
Envelhecer é um processo físico cujo principal protagonista é o corpo. Sabemos se a pessoa é jovem ou velha através do corpo. E envelhecer, tal como a adolescência, é ver e sentir o corpo a mudar. Neste caso, porém, um corpo que enfraquece, desvitaliza, que perde a sua jovialidade. Carne, ossos, músculos, órgãos, pele, olhos, cabelo. No entanto, tal como na fase viril e erotizada do corpo, este continua aqui a ter uma presença decisiva. Presença, sim, mas precisamente para revelar a sua superação ou anulação.
Há um momento absolutamente decisivo no filme. É quando a filha (Isabelle Huppert) diz ao pai (Jean Louis Trintignant) o quanto gostava, quando jovem, de ouvir os pais a fazerem amor, pois era sinal de que iriam continuar juntos. Ou seja, o corpo, neste caso, sexualizado e erotizado, como sintoma de uma ligação amorosa que transcende essa mesma sexualidade e erotismo.
Exteriormente, uma relação sexual pura e dura não se distingue de uma relação sexual entre duas pessoas que se amam. Os movimentos, as posições, os gemidos, as expressões faciais durante uma relação sexual entre duas pessoas que se amam, nada têm de diferente do que se passa entre duas pessoas cuja relação se esgota no sexo. Se numa prova cega nos pedirem para ver dois casais a terem relações sexuais, havendo amor num deles e a sua ausência no outro, não iremos conseguir distingui-los.
Quando, todavia, a filha se sentia apaziguada ao saber dos pais a terem relações sexuais, revelava uma sabedoria graças à qual é feita uma ligação entre o corpo e a alma. A ligação dos pais no sexo, naquele caso, era uma mera continuação da sua verdadeira relação, sobretudo enquanto melómanos que faziam da música erudita o seu elo de ligação, identificação e amor.
Nós, espectadores, assistindo agora à sua velhice, estamos na mesma situação da filha quando era criança. Assistimos a uma relação física entre marido e mulher, neste caso, porém, já não erotizada, mas no modo como o marido usa o seu corpo cada vez mais velho e cansado para acudir às necessidades do corpo doente e cada vez mais moribundo da mulher. E, mais uma vez, como outrora, é precisamente através do corpo que chegamos a uma dimensão que o transcende e anula.
Também numa prova cega, seríamos incapazes de distinguir uma enfermeira que trata tecnicamente de um corpo doente (tal como alguém que faz sexo pelo sexo encara tecnicamente o acto sexual, uma espécie de engenharia do prazer) de alguém que trata de um corpo doente por amor. O que o filme mostra, de um modo subtil, através de pequenos sinais a que vamos assistindo, é o amor incondicional de um homem pela sua mulher. Vemos dois corpos em interacção permanente como algo de materialmente evidente, gestos e movimentos ostensivos, gemidos, neste caso, de dor e não de prazer, mas apenas como momento imanente de uma dimensão cujo valor é transcendente.
Poder-se-á por isso dizer que o filme se inscreve numa linha platónica, neoplatónica e cristã segundo a qual o corpo, apesar da sua materialidade, assume a sua aparência, exigindo a sua transcendência. É no corpo que vivemos mas é na alma que verdadeiramente existimos. É dentro do corpo que vemos ou somos vistos mas é na alma que somos e onde devemos ser vistos. O amor, não é excepção.
Por isso, no final, mais do que assistirmos ao desaparecimento (e apodrecimento) de dois corpos como se fossem dois animais ou duas plantas, pressentimos o desvanecimento de duas almas e do amor que as uniu durante uma vida inteira.