20 dezembro, 2012

A CASA


Ainda sobre o filme do post anterior. À excepção, logo no início, de uma sala de concertos onde o casal vai ouvir tocar Schubert e, já perto do final, de uma fugaz vista para a rua, todo o filme decorre no interior da sua casa. Todavia, para além destas visões do espaço exterior, há uma parte do filme em que nos são mostrados quadros expostos na parede onde surgem, pintadas, silenciosas paisagens naturais. Estamos dentro de casa, não é espaço exterior mas adquirem esse sentido ao criar-se a ilusão, graças a grandes e estáticos planos,  de o realizador estar directamente a filmar junto ao mar, montanha ou perante uma bucólica planície, tal como faz em relação à casa.
Isso acontece num momento em que a casa vai, a pouco e pouco, esquecendo a vitalidade dos seus habitantes, cada vez mais perdidos nas suas respectivas solidões. A casa, cujas paredes alojam aquelas paisagens aparentes e silenciosas, parece assim também ela tornar-se cada vez mais uma artificial e silenciosa pintura povoada por almas que resistem a abandonar os seus corpos desvitalizados. Faz -me lembrar o que diz Bachelard em La Poétique de l' Espace quando diz que «la maison prend les énergies physiques d'un corps humain». Aquelas pinturas são realidades mortas, cópias aparentes de realidades longínquas que, ao coincidirem ontologicamente com a casa, sugerem uma absoluta identidade entre o real e o pictórico.
A sugestão pictórica na percepção da casa é decisiva na construção da identidade do do filme, pois parece-me intencional. O realizador, homem obsessivamente meticuloso e minucioso, mostra precisamente o que quer mostrar e nada ali parece ser por acaso. Aquela casa já foi previamente inventada pela pintura. Eu estou a ver uma casa cuja identidade já vi inúmeras vezes na pintura. Uma dupla identidade, todavia. Tanto exibe a esplendorosa jovialidade doméstica da pintura holandesa, como a melancolia cinzenta da pintura de Hammershøi  ou de Holsøe. Da primeira, temos todos os vestígios materiais de uma vida boa e burguesa harmonia: a decoração, livros, discos, velhas fotografias ou quadros com serenas paisagens, um piano na sala onde a professora de música dava as suas aulas (por exemplo, a Alexandre Tharaud, que faz de si próprio no filme), ou ainda, embora noutro registo, a cozinha como espaço cujo maior descuido acaba por acentuar o seu lugar de partilha de tarefas banais, como é o caso de um pequeno-almoço de roupão. Eis, pois, a clássica sacralização do espaço doméstico tal como nos é revelada pelos holandeses. Dos segundos, temos os silêncios que vão povoando uma casa cada vez mais vazia, as portas cada vez com menos movimento de entradas ou saídas, uma sobredimensão espacial que acentua a solidão das figuras humanas que a habitam (há mesmo um longo plano que, não sei se intencionalmente, praticamente reproduz este quadro de Hammershøi).
Esta "Poética do Espaço", com a sua duplicidade é, por isso, um elemento importante do filme, uma projecção da dupla condição dos seus inquilinos, que vagueiam entre uma anterior vida feita de amor, dedicação e fidelidade e uma outra já feita de distância, solidão e sofrimento. A casa funciona assim como uma espécie de coro. Não é uma verdadeira personagem mas um elemento vital que nos ajuda a perceber, que nos orienta, que nos avisa. Bastaria apenas deambular pela casa para percebermos o que há nela de confortavelmente humano, de um humano conquistado a pulso face aos desafios da finitude, mas também o que há nela de metafisicamente inquietante e de esmagamento sob o insustentável e inexorável peso da morte.