28 novembro, 2012

URNA FUNERÁRIA



É verdade que, comparada com outros sistemas políticos, a democracia é um luxo que a história demorou tempo a alcançar. Ainda assim tenho alguma dificuldade em perceber por que razão é tão enaltecida e romantizada, havendo mesmo pessoas a dar a vida por ela. Nada tenho contra as pessoas darem a vida pelo que bem entenderem. Apenas acho que a democracia não vale uma vida humana, nem deveria ser motivo de grande preocupação.
A democracia é pouco mais do que a mera possibilidade de uma parte de um todo poder decidir quem vai governar esse todo. Claro que é mais razoável do que fazê-lo à bruta através de um golpe de estado ou, mais simpaticamente, através de um sorteio com bolinhas que vão sendo retiradas de uma tômbola, só que, em vez de números como no Euromilhões, seria com nomes de partidos. Sim, mas o que tem isso de especialmente excitante? No fundo, tal como numa ditadura, haverá sempre uma parte a ser governada por alguém que não foi desejado, sendo apenas desejada por outra parte cujo peso eleitoral até pode ser ridículo. Imaginemos um partido que foi eleito com 30% dos votos, sendo os restantes 70% distribuídos pelos restantes partidos. Significa isto que uma esmagadora maioria está a ser governada por alguém que não deseja, esmagadora maioria cuja vontade é contrariada e não se reconhece nos seus governantes.
O 25 de Abril foi há quase 40 anos, portanto, 40 anos de democracia, quase tantos como a longa noite fascista. Punhamo-nos agora na situação de um militante comunista. Há 40 anos que esse militante vive num país governado por políticos que ele nunca desejou ou que pode mesmo rejeitar com repugnância. É aborrecido? É. Mas pronto, que remédio tem senão aceitar. Neste momento, somos governados por um primeiro-ministro, graças a uma maioria que, soubesse o que sabe hoje, não iria querer que governasse. Ou seja, o povo está a ser governado por alguém que não é desejado para governar. É aborrecido? É, mas engolimos em seco e temos que viver com isso.
Mas a vida continua e ninguém se suicida por causa disso, ninguém acredita que é infeliz por causa disso ou vai passar a assistir aos concertos do Tony Carreira por causa disso. Explicando melhor. As pessoas até podem ser infelizes por causa das más medidas de um mau governo, mas isso é diferente de serem mais felizes ou infelizes por escolherem ou não os seus governantes, essência da democracia. Ora, numa ditadura acontece precisamente a mesma coisa. Tal como acontece com um governante eleito democraticamente, um ditador é apenas alguém cuja liderança é desejada por alguns e indesejada por outros.
Estou a imaginar-me a viver em ditadura, governado por uma pessoa que rejeito mas que, de qualquer maneira, também iria rejeitar em democracia. Ora, que diferença me faz ser governado em ditadura ou democracia por essa pessoa? Certo, o meu desportivismo levar-me-á a dizer que aceitarei melhor isso em democracia por ser essa a vontade da maioria à qual, como se fosse uma dominatrix vestida de cabedal, me submeto. Pronto. Mas, na minha vida diária, quando acordo, trabalho, faço o meu passeio depois de jantar, leio um livro, ouço música, faço sexo, tomo um banho de mar ou brinco com os filhos num jardim, quero lá saber se é uma ditadura ou uma democracia que me obriga a ser governado por alguém que eu não queria para me governar.
Creio, por isso, que levar a democracia demasiado a sério é um capricho de gente que também leva demasiado a sério meras formalidades constitucionais. Admito que discutir ou defender a democracia possa ser intelectualmente estimulante para constitucionalistas, filósofos políticos ou pessoas que queiram viver da política. Mas, tirando esses, o que tem a democracia assim de tão especial para entusiasmar tanto as massas?
Há tribos e povos por esse mundo fora que não fazem a menor ideia do que é a democracia e que eu saiba os seus membros não são infelizes por causa disso, nem pensam fazer golpes revolucionários para instituir a democracia. Numa empresa, num banco, num quartel, na igreja, ninguém elege os seus superiores, nem participa das decisões desses superiores. As empresas, os bancos, as forças armadas, a igreja, são comunidades não democráticas, oligárquicas, aristocráticas, e não vejo os seus membros com angústias político-existenciais por causa disso. Um funcionário de uma empresa pode detestar o seu director. Mas não é por ter sido ou não eleito democraticamente que o detesta. Ele pode, embora imposto, ser amado, mas também ter sido eleito democraticamente e ser detestado.
Por isso, eu olho para estas três fotografias e fico baralhado. Em todas vejo pessoas felizes. Eu olho e vejo pessoas, não vejo sistemas políticos, abstracções constitucionais, ideologias, princípios filosóficos de natureza política. Vejo pessoas e não sei quem as governa. Claro que sendo um rapaz informado, sei que numa destas fotografias, feita nos Estados Unidos, se vive num regime democrático, enquanto nas outras, feitas na URSS, se vive sob uma ditadura feroz. Mas isso já são os meus abstractos quadros mentais a funcionar, sobrepondo-se à natural textura da realidade. Imbuído de preconceitos, sou falaciosamente levado a acreditar que, apesar de nas três fotografias as pessoas estarem bem dispostas, o primeiro grupo é mais feliz do que os outros dois, só porque vive em democracia e os outros em ditadura.
As pessoas quando riem ou choram não riem ou choram por estar em democracia ou em ditadura. Podem rir por ter comida no frigorífico ou chorar por não a terem. Mas a comida no frigorífico nada tem que ver com uma formalidade constitucional. A democracia não mata a fome a ninguém nem faz as pessoas felizes. Pode-se viver melhor numa ditadura do que numa democracia e se as pessoas tiverem que escolher entre a comida e um acto eleitoral irão, sensatamente, escolher a primeira. Estabeler juízos de valor entre a democracia e uma ditadura é por isso tão enganador como fazê-lo entre uma república e uma monarquia. Um belo passatempo para filósofos e políticos. Uma inutilidade para quem considere que poder eleger quem nos governa está muito longe de ser a coisa mais importante da vida. O povo quer pão e circo. Olhando para o ar feliz daqueles soviéticos, sou levado a acreditar que faz o povo muito bem. O voto, mal entra na urna, morre. Morre o voto mas a verdadeira vida continua.