16 novembro, 2012

THE NAME IN BRAIN STAYS VAINLY IN THE PLANE

                                                                       Diane Arbus

O My Fair Lady parte da história de Pigmalião para se centrar na linguagem: até que ponto é possível transformar Eliza Doolitle, uma rude e boçal vendedora de flores de Covent Garden, numa mulher que fala a língua inglesa com correcção e elegância. Não se trata de transformar uma rapariga ignorante numa rapariga  informada e culta. Não, apenas fazer falar bem quem antes falava deploravelmente. Um puro exercício fonético que ensine a dizer correctamente "The rain in Spain stays mainly in the plane".
Eliza aprende a falar correctamente. E a prova de fogo vai ser o baile, onde irá conviver com a nata da sociedade inglesa. Nesse baile está um linguista húngaro cuja especialidade é, através de uma atenta análise da dicção, caçar pessoas que não sejam socialmente puras. Para o fazer, basta-lhe o território da fonética, sem precisar de avaliar a cultura, o saber, ou até a habitual pantomima social feita de pose, gestos, maneira de andar, sentar, observar, comer, que as meninas e os meninos aprendem para mais tarde fazerem boa figura nos diversos palcos sociais. Eliza Doolitle, neste sentido, não passa de um cadelinha amestrada graças apenas a uma coordenação mecânica da língua, palato, céu da boca, cordas vocais e dentes. Mas também é verdade que a ideia de Higgins, o seu Pigmalião, não era transformar Eliza numa mulher culta.  A sua tarefa não passou de uma aposta, de um capricho de ocioso linguista que se quer divertir um pouco. Treinou Eliza na linguagem como um etólogo ensina um macaco a pintar, um cão a fazer recados ou um cavalo a cumprimentar a assistência com a pata.
Hoje, num teste que dei numa turma de 11ºano onde lecciono uma disciplina em se dá um pouco de tudo (História, Geografia, Economia, Política, Filosofia), aconteceu uma coisa que me fez lembrar o filme. No teste havia um grupo com afirmações verdadeiras e falsas, tendo os alunos que as identificar e explicar porquê. Uma dessas afirmações era: "A globalização é uma característica exclusiva das sociedades contemporâneas". Ora, ao longo da aula, foram vários os alunos que me chamaram ao seu lugar para me perguntar: 1. O que significa "exclusivo"; 2. O que significa "contemporâneo". O suficiente para não perceberem, não a resposta, mas o simples sentido da frase. Contrariamente ao que se possa pensar, não fiquei em estado de choque. Não porque não fosse motivo para isso mas apenas porque já estou habituado.
Esta situação não é idêntica à do filme. Não se trata de um problema de fonética em que se leva uma vendedora do Bolhão a dizer "contemporâneo" ou "exclusivo" com a dicção de uma professora universitária. Lá voltamos a Eliza. Dizer correctamente "exclusivo" ou contemporâneo" é uma questão mecânica e essa foi a grande vitória de Eliza. Só que ela passou directamente de Covent Garden e da espelunca onde vivia, para a casa de Higgins, o seu professor, como um macaco que, em 24 horas, vai de uma floresta do Ruanda para um circo europeu.
A situação, aqui, é diferente. Estamos a falar de criaturas que andam há 11 anos numa escola e que vivem, não numa floresta do Ruanda, mas num país europeu, ainda que se trate de um país europeu que em muitos aspectos seja mais parecido com o Ruanda do que os outros. Pergunto o que terá acontecido ao longo de 11 anos de escola para que uma pessoa, quase adulta, não saiba o que significa "exclusivo" e para quem a simples noção de "Mundo Contemporâneo" seja tão esotérica como os princípios da Física Quântica. Pergunto o que se passará dentro da cabeça de uma pessoa que não sabe o significado de "exclusivo" ou "contemporâneo". De uma pessoa que lê a frase "A globalização é uma característica exclusiva das sociedades contemporâneas" e não consegue entendê-la. Pensa? Haverá vida inteligente dentro de si que possa ser detectada por aparelhos tecnologicamente sofisticados? E, se há, que tipo de vida será essa? Poderemos comunicar com ela? O que se passa, neurologicamente e mentalmente, na cabeça de uma pessoa assim, quando um professor dá uma aula e diz "A globalização é uma característica exclusiva das sociedades contemporâneas."? E como foi possível chegar a esta situação? O que aconteceu em 11 anos de escola para que tal fosse possível? Não estou a brincar ou a gozar, a minha pergunta é genuinamente séria e a minha perplexidade e inquietação neurocientífica, autêntica.
Felizmente, está o fim de semana à porta, e durante dois dias, irei esquecer-me de tentar responder.