25 novembro, 2012

SUJEITO SEM PREDICATIVO

                                                              Página de Austerlitz de W. G. Sebald

Le plus important précepte de la science, est de sçavoir qu'il y a des choses qui ne méritent pas d'estre sceues; ce que Quintilien a dit particulièrement de quelques notions grammaticales. Mais il y en a d'autres qu'on peut dire estre absolument hors de la portée de nostre esprit, qui est trop profondément plongé dans la matière, pour bien reconnoistrece qui en est dégagé. Cependant c'est une des principales, et des plus ordinaires maladies de l'homme, d'estre travaillé d'une curiosité inquiète pour des choses qu'il ne peut sçavoir, et qu'il lui est vraisemblablement plus avantageux d'ignorer, que d'en prendre connoissance, puisque Dieu a limité la sphère d'activité de son âme, qui ne peut pas pénétrer jusques-là. Ainsi l'on peut soustenir que c'est une espèce d'intempérance très-pernicieuse, de vouloir sçavoir plus qu'il ne faut, et que le Ciel ne nous le permet, plus velle scire quant sit satis, intemperantiæ genus est, comme un Payen mesme l'a reconnu. La Mothe Le Vayer, Soliloques [texto completo aqui]

Nunca estudei Teologia mas não posso negar o fascínio que ela exerce sobre mim. A Teologia bem poderia ser um devaneio literário saído da genialidade de um Swift, de um Borges ou de um Calvino. A descrição de uma inaudita e bizarra forma de vida inteligente, sei lá, de um povo milenar que habitasse as cavernosas profundezas de uma inacessível montanha da Nova Guiné, ou outra coisa assim do género.
Um dos exercícios teológicos que acho mais engraçados mexe com a omnisciência divina: se Deus é omnisciente, saberá quantos cabelos tenho neste preciso momento e quantos tinha antes de ter tomado duche? E saberá a soma de todos os cabelos de todas as pessoas de Torres Novas? E a soma de todos os cabelos de todas as pessoas do distrito de Santarém? E a soma de todos os cabelos de todas as pessoas que vivem em Portugal? E na Europa? E no Mundo? E a soma de todos os cabelos de todas as pessoas que viveram desde o Paleolítico até agora?
Eu, que não sou teólogo e por isso não posso saber o que se passa dentro da cabeça de Deus, sobretudo quando Ele próprio não sabe bem o que pensar para ajudar a passar o tempo durante uma noite de insónias, não sei responder. Por um lado, acho uma estupidez imaginar Deus a perder tempo com certas coisas quando há tantas outras importantes em que pensar. Mas, por outro, se não souber mesmo tudo já não é omnisciente. E se Deus não é omnisciente já não será Deus mas outra coisa qualquer, hipótese pouco interessante para a teologia, pois se Deus não for Deus mas outra coisa qualquer, a Teologia deixa de fazer sentido, uma vez que será disparatado existir uma ciência do que não existe.
Pensei nisto depois de ter estado  a estudar gramática com uma das duas criaturas que saíram das minhas entranhas, salvo seja, já que, de contracções, felizmente, só conheço mesmo as gramaticais. Não que a minha criatura me leve necessariamente a pensar nos desvarios mentais de um putativo Criador e, consequentemente, aos mistérios da Teologia. Pensei nisto, sim, por causa da inutilidade de certo tipo de saberes, nomeadamente,  uma coisa chamada predicativo do sujeito.
Vamos lá ver. Eu não sou aquele tipo de pessoa que defende que a escola serve sobretudo para as criancinhas andarem a escrever redacções sobre os passarinhos e a Primavera, ou aprenderem umas coisas giras. Para o provar, defendo que as criancinhas deveriam ter Latim como disciplina obrigatória desde o 7ºano e o Latim não é propriamente uma coisa fácil e divertida. Agora, sinceramente, não consigo perceber qual o interesse de saber o que é o predicativo do sujeito quando há tanta coisa útil e importante para desenvolver nas cada vez mais indigentes cabeças daqueles que são o futuro da nação.
Eu até gosto de gramática e considero absolutamente fundamental o respeito pelas regras gramaticais. Mas a gramática deve ter uma função prática, não teórica. Levar pessoas que apenas queremos que falem e escrevam bem a saber o que é o predicativo do sujeito apenas para saber o que é o predicativo do sujeito, é como obrigar um carpinteiro a saber física para conhecer a estrutura atómica do martelo, ou as leis da força e do movimento para perceber o movimento do martelo sempre que bate com ele no prego. A gramática, como exercício teórico, é importante, sim, num plano mais evoluído da aprendizagem, por exemplo, num grau universitário. É preciso haver pessoas que saibam o que é um predicativo do sujeito. Não percebo é por que razão as criancinhas também têm que saber o que é o predicativo do sujeito.
Saber em demasia pode ser tão disparatado como não saber o que é importante saber. É costume dizer que o saber não ocupa lugar. Apetece-me dizer, à Fernando Ulrich: "Ai ocupa, ocupa!" Deus que o diga, se por acaso existir. Nós, finitos e mortais, finitos e mortais humanos, não devemos brincar aos deuses e ter a ousadia de saber em demasia. No fundo, no fundo, enquanto sujeitos, o que verdadeiramente interessa é sermos como um bom carpinteiro e não sujeitos sem predicados.