24 novembro, 2012

QUÉ VIVA MEXICO!

                                                                       Flor Garduño

Quando, ontem, li este título, fiquei estupefacto. Esta ideia de um presidente querer mudar o nome do seu país acendeu no meu cérebro uma luz de alarme. Não só pela engenharia de linguagem que serviu de colorido embrulho de sinistros exercícios de engenharia social, mas também pelo preocupante ímpeto transformador associado à modernidade, a qual ama a mudança pela mudança, sem que daí se retirem benefícios que se vejam. Porém, lendo a notícia, fiquei apaziguado uma vez que não era nada do que estava à espera. Bem pelo contrário, trata-se de uma mudança justificada.
Assumo a minha ignorância: não fazia ideia de que o México se chamava Estados Unidos Mexicanos. E o que o presidente do México deseja é que o México se chame mesmo México e não uma mera formalidade ideológica associada à sua origem, por se ter inspirado na experiência de democracia e liberdade do seu vizinho do norte. México, pelos vistos, é um simples nickname mas um nickname cuja adopção se transformou na palavra que designa o objecto, tal como a palavra cadeira designa o objecto cadeira e a palavra estrela o objecto estrela. E, de uma tal maneira, que o verdadeiro nome do país passou a ser uma formalidade sem vida.
Esta desideologização do nome, substituída por um nome vivo de carne e osso parece-me interessante para a comparar com processos opostos. Por exemplo, a transformação de um país chamado Rússia num país chamado URSS, um país chamado Alemanha num outro chamado República Democrática Alemã. Ou, noutro contexto, uma ponte Salazar numa ponte 25 de Abril ou uma cidade chamada Lourenço Marques numa cidade chamada Maputo.
Imaginemos que com o 25 de Abril Portugal tinha passado a chamar-se República Democrática de Portugal. É verdade que o país passou a viver sob uma democracia. Mas o nome de um país não pode estar sujeito a conjuncturas socias e políticas ou a condicionalismos ideológicos. Um país tem uma história, história essa que lhe atribuiu um nome com o qual tem que viver. E as pessoas morrem, os revolucionários, sejam de esquerda ou de direita, morrem, mas o país, que não é propriedade de nenhuma força política ou movimento, continua, para o bem e para o mal, com a sua identidade histórica de sempre. Também a URSS quis transformar a alma russa numa alma socialista e soviética. O socialismo e o soviete supremo apodreceram, não chegando a durar um século, e regressou a velha Rússia de sempre. E que sentido tem um país chamado República Popular da China? Não basta ser China? Mas por que raio há-de ser popular?
Mudar o nome de um país por razões ideológicas é tão disparatado como um tipo que, antes do 25 de Abril, se chamava Manuel Ferreira, e que por ser do PC em 1975 passaria a chamar-se Vladimiro Cunhal e que, anos mais tarde, ao virar-se para o PSD, se transformaria em Manuel Carneiro. Uma tolice sem pés e cabeça. O nosso nome é o nosso nome, seja bonito ou feio, e independentemente da nossa ideologia, credo religioso, paixão clubística, seja lá o que for. Se eu me chamasse Barnabé Costa iria detestar o meu nome e teria inveja de todos os tipos com nomes bonitos. Mas se aos 20 ou 30 anos pudesse mudar para João ou Pedro, não mudaria. Nasceria Barnabé, morreria Barnabé.
É verdade que o México não nasceu México. Porém, neste caso, é o nome pelo qual toda a gente no mundo o conhece. É mais pequenino, mais giro, mais fofinho do que Estados Unidos Mexicanos ou lá o que é. Olhar para o México e pensar em Estados Unidos Mexicanos faz-me lembrar, a mim que sou Zé, quando a minha mãe, zangada, me chamava José Ricardo para ralhar comigo. O México não fez mal a ninguém e não merece um nome daqueles. Qué viva Mexico!