12 novembro, 2012

MUNDO OBLÍQUO


   Robert Doisneau | Le Regarde Oblique

Acho muito graça quando vêm com aquelas estatísticas dos acidentes de viação, seguidas de profundas explicações para justificar por que houve no ano X menos 5 ou 6 mortos do que no ano Y: a educação rodoviária, o maior civismo dos condutores, mais cuidado com as bebidas alcoólicas, a manutenção das estradas. Haverá sempre uma explicação pois tudo na vida tem que ter uma explicação e não sabemos viver sem explicações. E, para explicar, nada melhor do que a evidência dos números. Nas escolas portuguesas, então, é um verdadeiro vendaval de números, com tanta gente excitada com o poder oracular dos números.
Mas regressemos às estradas portuguesas. O João conduz o seu automóvel com mais quatro amigos. O Luís, no banco de trás, diz para o João, João olha aquela gaja boa que vai ali a passar. O João olha para a gaja, e gosta tanto da gaja que se esquece que vai a conduzir, vindo a embater numa oliveira, morrendo os cinco ocupantes. Ora, até este dia, tinham morrido tantas pessoas como no ano anterior, havendo, por causa daquela pobre oliveira ali esquecida à beira da estrada, mais cinco mortos nesse ano.
Mas terá sido mesmo por causa da oliveira? Não terá sido antes por causa da gaja? Se a gaja não fosse boa, o Luís teria dito ao João para olhar? E se a gaja até fosse boa mas o João fosse gay e não ligasse a gajas? E se a gaja fosse boa mas o Luís, por ser míope, não a tivesse visto e nada tivesse dito ao João? E se o Luís fosse gago e quando avisasse o João, a gaja boa já tivesse passado? Menos 5 mortos nesse ano.
Mas o telejornal, a polícia, o ministro, o secretário de estado, mais os sociólogos querem números. Mais cinco mortos do que no ano anterior. Dá que pensar. Era suposto haver menos, nem que fosse menos um. 86 em vez de 87 e teria sido excelente. O mundo civilizado vive disto: de seminários, colóquios, estudos, relatórios, comissões, académicos que tudo explicam.
Tudo gente muito instruída, de facto, que muito lê, escreve, pensa, reflecte e discute. Gente, porém, que nada percebe de gajos que gostam de gajas.