14 novembro, 2012

MUDAR DE ROUPA

Robert Hecht

Após um período politicamente activo, Maquiavel, acusado de traição, é desterrado para uma propriedade, onde, afastado da vida política, se dedica a ler os seus clássicos e a escrever. Não apenas as suas obras políticas e historiográficas mas também poesia e teatro. É durante este exílio interior que escreve também a famosa carta ao seu amigo Francesco Vettori (10 de Dezembro de 1513). Eis algumas passagens.

(...) vivo na minha casa de campo. Levanto-me com o sol e vou a um dos meus bosques que mandei limpar; aí fico duas horas a rever a tarefa do dia anterior e a matar o tempo com os meus lenhadores: eles estão sempre metidos nalgum problema, quer entre eles, quer com os vizinhos.
(...) Saindo do meu bosque, vou a uma fonte e, dali, verificar as minhas armadilhas para os pássaros. Levo um livro debaixo do braço, ou Dante ou Petrarca, ou um destes poetas menores, como Tíbulo, Ovídio e outros. Mergulho na leitura dos seus amores, e os seus amores recordam-me os meus; pensamentos em que me distraio por um bom tempo. De seguida, vou à hospedaria, à beira da estrada. Converso com os que passam, peço notícias das suas cidades, descubro uma porção de coisas, observo a variedade de gostos e diversidade de caprichos dos homens. É assim que se aproxima a hora do almoço em que, na companhia da minha gente, nutro-me dos alimentos que a minha pobre herdade e o meu magro património me permitem. Após o almoço volto à hospedaria. Lá, encontro-me habitualmente com o hospedeiro, um açougueiro, o moleiro e dois forneiros. É com essas pessoas que toda a tarde me entretenho a jogar tric-trac, cricca, jogo de que nascem mil disputas, respostas afiadas e insultos.
À tarde volto para casa. À entrada do escritório dispo as roupas sujas e enlameadas para vestir roupas de corte real ou pontificial; assim honradamente trajado, entro nas antigas cortes dos homens da antiguidade. Aí recebido com afabilidade por eles, nutro-me do alimento, que é por excelência o meu e para o qual nasci. Não me envergonho de falar com eles e interrogá-los sobre o motivo das suas acções e eles, em virtude da sua humanidade, respondem-me. E durante quatro horas não sinto o menor aborrecimento, esqueço todos os meus tormentos, deixo de temer a pobreza, a própria morte não me perturba."

Se, como as imagens, os textos tiverem um punctum, o desta carta está no momento em que Nicolau (é assim que me apetece tratá-lo) chega a casa para, como se de uma cerimónia religiosa se tratasse, vestir as suas melhores roupas. Precisamente o contrário do que é habitual, pelo menos actualmente: vestir a melhor roupa para sair e andar por casa mais informalmente.
Nicolau passa os seus dias entre as pessoas, estuda-as, observa as suas "disputas, respostas afiadas e insultos" com o mesmo olhar distanciado com que um entomólogo observa os seus insectos. Estuda e observa os vivos porque são os vivos que ele precisa de compreender. Mas, depois, limpando os pés ao entrar em casa e despindo as roupas enlameadas, é com os seus mortos que ele vai ter para com eles se deleitar na sua solidão doméstica e com eles encontrar as respostas para compreender os vivos.
Nicolau vive no tempo, o tempo que foge, o tempo da história, o tempo do efémero, mas, na companhia dos seus mortos, encontra finalmente a paz que pouco conheceu ao longo da sua vida atribulada. A última fase de Maquiavel, de maquiavélico nada teve. Os mortos com quem conversava nas longas noites renascentistas também não são maquiavélicos mas apenas inofensivos fantasmas sobrevivendo nos livros, e Nicolau, na sua solidão campestre mas com as suas roupas burguesas, também apenas um fantasma que lê, recolhido no silêncio da noite.